Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir emissões para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para satisfazeres na caixa as obrigações contrahidas.
E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire. M.me William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas queria obter dados precisos, exactos, constatados{127} por ella tanto quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança e firmeza de pulso.
Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar seriamente, no que ella chamava o negocio do barãosinho.
—Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o possue, trata-se de descobrir quem elle é.
Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a qualquer entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A marqueza ama o grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o theatro e tem um camarote na Opera.
Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.
É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os olhares; e d'isso me encarrego eu, M.me de la Tournelle!
A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra, elles teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos as scenas harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações litterarias e artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a emoção produzida attinge a sua maior intensidade.
O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos.
M.me de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á lei commum, doce{128} lei que ordena áquelles que se amam que tudo sintam em commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.