Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de deputado republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a marqueza frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas comprehendiam que a sua ligação era impossivel se não observassem a cada instante a maior prudencia.

O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu palacete havia readquirido a animação de todos os invernos.

O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse visto a conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo.

M.me de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados, afim de vêr ali o seu amante.

Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira, escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo os oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua actividade, e a marqueza era feliz vendo-o assim.

Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza todas as outras mulheres...

—Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa sublime mulher!{129}

Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso segredo.

E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle atravez a sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota.

Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares, transmitia-lhe tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as varetas do seu lindo leque beijos discretos.