Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de orchestra interrogarem-se.
—Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa estrella de diamantes?
—É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.
Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...
Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade, belleza e espirito.
Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua deliciosa amante.
Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos ouvidos essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:
—Amo-te! Amo-te!
Invejava e tinha ciumes de todos os que{130} visitavam o camarote da marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das flôres e dos canticos que enchiam o theatro.
As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão na intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha organisado com uma arte consummada.