Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações e mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam menos, por não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as mesmas emoções, os mesmos prazeres.

Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.me de la Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro do pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da sala, chamou a attenção da amante.

Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:

—Que imprudencia!

E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.

Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.

Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.me William, a aranha ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza estando só, tinha-se affastado{131} por alguns minutos da frente do camarote.

—Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o?

M.me William havia já começado a sua sombria tarefa de espionagem. Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a perplexa. Não podera ainda achar um facto preciso, que podesse collocal-a n'uma pista que devesse seguir.

Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas suas piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu partido uma noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin interpellará proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da perfeitura da policia. Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes infamias dos agentes secretos. O sr. Ronquerolle apresentará factos, não baterá ao acaso. Desejamos que o ministro seja d'esta vez, um pouco mais feliz do que na sua ultima derrota.»