M.me de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, por um adoravel e quasi imperceptivel buçosinho.
—É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas vezes sorrindo, para M.me de la Tournelle. E devemos tirar todo o partido possivel do que a natureza nos concedeu.
Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade parisiense. Ella bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo os mais fortes e os mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir falar nos encantos, na elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.
Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.
Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era tambem, o seu orgulho.
Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do «Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a abraçar o mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que haviam redigido essas noticias tão simples, mas para elle tão encantadoras, afim de{143} lhes offerecer opiparos jantares na «Maison d'Or», em que o Champagne corresse a rôdo.
Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção.
Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se a sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria esposa, como se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos olhos sonhos voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel intensidade o tão falado supplicio de Tantalo. O divino licôr mostrava-se deante dos seus labios febris, mas o marquez não podia mitigar a sêde que o devorava. E não tentava sequer aproximar o calice que brilhava como faiscas de diamantes.
Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma corrente que cae no fundo d'um precipicio.
Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral que quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la Tournelle teria falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a replica, e teria arrombado sem difficuldade a porta do quarto de dormir onde a marqueza se encerrava pretextando a fadiga ou o arranjo da sua toilette.