É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que indicam o dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais fechado a porta; viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado na{144} fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.
A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela fraqueza. É feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal, feroz ou louco, mas por uma força intelligente, bella e harmoniosa.
O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe.
Para M.me de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com elle sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava ligada ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida, augmentando dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação.
O marquez estava preso da maior angustia.
Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu os aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de dormir, o seu «boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de perfumes. Reinava ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do grande mundo, quando acaba de se preparar para ir a um baile, a um theatro, ou a uma entrevista de amôr.
Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle cahiu sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero impossivel de descrevêr.
Uma extranha recordação invadiu todo o{145} seu sêr, e lagrimas ardentes queimaram as suas palpebras.
No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre comsigo nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin e de Saint-Martin para Paris.
Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir.