Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes, trataram[{80}] de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar, Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em signal de torva alegria.

Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte, saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças, arremessando[{81}] azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a cidade. Lembraram-se então os infantes[{82}] de que n'aquelle mesmo dia poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois, entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.

Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos cadaveres amontoados, que embargavam os passos[{83}] dos vivos; nem os invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma resistencia acabou; os vãos[{84}] esforços da população mussulmana para salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha, deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu a Deus[{85}] esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre os muros da soberba Ceuta.

Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D. João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos, principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o mundo tem visto.[{86}]

[{87}]

VI

Regencia do infante D. Pedro.—Combate de Alfarrobeira

1439 A 1449

O cadaver do virtuoso D. Duarte havia descido ao sepulchro, onde, emfim, repousava das amarguras de tão curto como desditoso reinado. Para a menoredade de seu filho Affonso V, que então contava seis annos, ficára regente do reino a rainha D. Leonor. Esta, sentindo a necessidade de buscar na côrte seguro esteio contra a má vontade dos subditos, que lhe não perdoavam ser mulher e estrangeira, e[{88}] sobretudo ter contribuido com solicitações e conselhos para a funesta empresa de Tanger, procurou associar ao imperio o infante D. Pedro, duque de Coimbra, promettendo-lhe ao mesmo tempo o casamento do rei com sua filha D. Isabel, e julgando prendel-o assim pelo esplendor da invejada alliança. Em breve, porém, instigada pela cubiça do poder, que foi a paixão predominante dos ultimos annos da sua vida, ligou-se com o conde de Barcellos, filho natural de D. João I, e á frente dos seus parciaes, aproveitando todos os pretextos, tentou de dia em dia coarctar a auctoridade do infante.

Então o povo de Lisboa começou a alborotar-se, e depois de muitos tumultos e desordens proclamou regente e defensor do reino o duque de Coimbra. Suppondo que pouco duraria um poder, assente em tão movediço alicerce[{89}] como é o favor da plebe, a rainha acolheu-se a Alemquer, onde se fez forte; mas as côrtes, reunindo-se immediatamente, confirmaram a nova regencia, e resolveram que a educação d'el-rei e de seu irmão fosse confiada a D. Pedro.