O estado da nação n'aquella épocha era, na verdade, lastimoso. Parecia que uma estrella aziaga tinha constantemente presidido aos destinos do fallecido monarcha. A peste assolava o reino; a miseria publica tomava todos os aspectos; o infante D. Fernando, heroe e martyr, jazia captivo em Africa; as prophecias de mestre Guedelha, o astrologo judeu, realisavam-se fatalmente; e as gloriosas recordações de Aljubarrota e de Ceuta tornavam ainda mais duros os flagellos com que a fortuna, como que arrependida de ter sempre protegido D. João I, se[{90}] vingára em crueldades sobre o seu successor. Por cumulo de infortunios o prior do Crato, o conde de Barcellos e outros fidalgos, poderosos em influencia e valor, julgaram opportuno o ensejo para realisarem projectos de ambição, e proclamando a resistencia em nome da viuva de D. Duarte, constrangeram o regente a empunhar as armas para os conter. Apezar de tudo, porém, D. Pedro dirigiu com tal prudencia o leme do estado, que dentro de pouco tempo desvaneciam-se os fumos da discordia, e Portugal respirava á sombra das leis, dilatando as forças e engrossando as riquezas no seio de perfeita bonança.
Chegado el-rei aos quatorze annos, edade em que, segundo o fôro de Hespanha, qualquer principe devia haver inteiramente posse do seu reino e senhorio, quiz o duque de Coimbra entregar-lhe[{91}] o supremo poder, que D. Affonso, ainda não pervertido por suggestões calumniosas, recusou acceitar. A inveja, comtudo, não se enfreia nem com as ligações de familia, nem com as obrigações de gratidão, simples vinculos moraes que a historia tem muitas vezes mostrado serem fracos para conter a violencia das paixões; e as intrigas do conde de Barcellos, já então elevado á dignidade de duque de Bragança por aquelle mesmo contra quem conspirava, fizeram com que o moço rei exigisse pouco depois ao infante os fios da administração, para os sujeitar ás influencias de uma nobreza aventurosa, insoffrida de todo o jugo, mais habituada aos enredos da côrte que ás pesadas occupações do governo, e incapaz por isso de sustentar com lealdade, energia e destreza os interesses da monarchia.[{92}]
Tornados d'este modo reis de facto na resolução das questões mais importantes, os conselheiros de D. Affonso V sentiram recrudecer ainda a aversão contra o principe, cujo caracter generoso e firme os havia confundido ou humilhado. Ha almas impiedosas, abysmo de odios violentos e de paixões profundas, que, no momento em que se realisa a ventura por largo tempo sonhada, se deixam, todavia, subjugar por estranho sentimento de benevolencia; n'outras, porém, a perversidade é singular genero de fome que quanto mais damno causa mais appetece, é lodaçal que até entre formosas paizagens impregna a atmosphera de miasmas pestiferos. No regaço da fortuna continuaram, pois, esses homens a malquistar o infante com o monarcha, que, apesar de ter já casado com sua prima D. Isabel, entrou a[{93}] afastar o sogro e a dar-lhe claros signaes de que condescendia sem hesitar com as villezas d'aquelles, por quem mostrára sempre decisiva predilecção. Dotado de indole altiva e pouco soffredora, lasso do serpeiar flexuoso dos cortezãos, D. Pedro, em vez de permanecer junto do sobrinho a fim de lhe expungir da mente as perfidas calumnias, retirou-se logo para Coimbra, deixando d'esse modo livre o campo aos adversarios para a seu salvo satisfazerem rancores, que o tempo cada vez mais exacerbára.
Debalde correu então á côrte a defender o irmão o infante D. Henrique, que já n'essa quadra residia em Sagres; debalde o conde de Avranches, D. Alvaro Vaz de Almada, o mais illustre cavalleiro da Peninsula, alma grande, generosa, leal e intrepida, reptou os accusadores do duque de Coimbra,[{94}] nenhum dos quaes se atreveu a levantar o guante; debalde interveiu a propria rainha, procurando entre lagrimas e caricias reconciliar o marido com o pae. Tudo foi inutil. Dominado pela contumacia dos validos e cego pelo orgulho dos verdes annos, D. Affonso V prohibiu ao sogro que voltasse á côrte, e como este se recusasse a entregar as armas que possuia em Coimbra, allegando que necessitava dellas para se defender dos seus inimigos, declarou-o rebelde e partiu contra elle á frente de um poderoso exercito.
Este procedimento do monarcha operou no animo de D. Pedro uma revolução moral, d'essas que só as grandes crises podem produzir; foi sobresalto, embate, transformação repentina de todas as suas idéas e sentimentos. Entretanto, aconselhando-se com aquelles[{95}] em que principalmente confiava sobre o que havia de fazer, acceitou o aviso do conde de Avranches; e, partindo de Coimbra com diminuta hoste, determinou buscar o sobrinho e genro, pedir-lhe justiça contra os que o infamavam, e se a moderação e firmeza não bastassem, rota a ultima barreira, repellir a força com a força, arvorando o pendão negro da revolta.
Chegando proximo a Alverca, assentou D. Pedro arrayal nos plainos de Alfarrobeira em sitio assás defensavel. Ahi o encontrou el-rei, e logo o cercou completamente, mandando ao mesmo tempo apregoar por seus arautos, que seriam tidos por traidores todos os que não desamparassem o infante. Essa intimação, todavia, não produziu o ambicionado exito, e pelo contrario alguns cavalleiros e soldados, movidos por nobre sentimento de generosidade,[{96}] vieram unir-se áquelle que o soberano tratava como rebelde. Emquanto isto succedia, e talvez fosse possivel evitar o funesto conflicto dos dous bandos, um acontecimento fortuito apressou o desfecho do terrivel drama.
Os bésteiros e espingardeiros do exercito real, abrigados uns pelo denso arvoredo que sombreava o ribeiro de Alfarrobeira, collocados outros no cimo de um outeiro que dominava o acampamento, começaram a varejar com tiros o arrayal do infante. Vendo este os seus leaes companheiros immolados sem combate nem gloria, mandou disparar algumas bombardadas, uma das quaes acertou perto da tenda de el-rei. Então a briga empenhou-se decisivamente. De uma parte estava um troço de homens intrepidos, aos quaes a desesperança augmentava o esforço; da outra[{97}] um exercito numeroso e aguerrido, contra cujo poder seria impossivel a resistencia. Como se não bastasse, porém, a desegualdade entre os dous contendores, o infante, ferido por uma setta que lhe varou o corpo, tombou por terra logo ao principio da peleja, e com a sua morte feneceu em redor d'elle todo o esforço dos animos mais robustos. Sómente o conde de Avranches, que havia jurado não sobreviver a D. Pedro, luctou denodadamente contra os de el-rei, já senhores da victoria. Cegos de furor, cavalleiros e peões arrojavam-se e cahiam diante d'aquelle vulto, como os vagalhões de mar tempestuoso se arremessam e desfazem em frente dos rochedos da costa. No meio de larga clareira, só, impavido e magestoso, D. Alvaro derribava a seus pés quantos d'elle se aproximavam, e parecia, como o Campaneu de Stacio,[{98}] ameaçar os deuses e os homens. Afinal, perdidas as forças, baqueou por entre os inimigos, que a poder de golpes depressa o acabaram.
O sangue do infante, vertido n'esta carnificina, a que mal podemos dar o nome de batalha, não ficou inulto. Da filha do duque de Coimbra nasceu o principe que tomou sobre si a obra terrivel da expiação. O cadafalso de D. Fernando de Bragança vingou o assassinio do infante D. Pedro, e mais uma vez se realisou a terrivel sentença biblica, que ameaça punir nos filhos as iniquidades dos paes.[{99}]