Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e de[{122}] seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira, determinou a partida.
Prestes a armada, que se compunha de duas naus, S. Gabriel e S. Raphael, da caravella Berrio, e de um navio de mantimentos, embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na[{123}] expedição, e que seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de 1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D. Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias[{124}] da viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros, procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças, mas com todos os seus assombros e perigos.
Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros temiam,[{125}] e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal, pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis que para a traição empregára, se viu constrangido a[{126}] entregar um piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim, o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.
Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança; mas o[{127}] tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza, porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino. Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o enlevo,[{128}] a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante d'aquellas almas energicas.
Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte, ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens, sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações: Calecut,[{129}] Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.
Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar, o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar, as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para o uso e[{130}] delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome, constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.
Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago, deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros, porém, costumados de longo tempo[{131}] aos lucros commerciaes d'aquella terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos, que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade, dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel[{132}] de colher ás mãos os estrangeiros.
Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram á patria.
Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada, em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental. Justificára-se o firme proposito que vencêra[{133}] as apprehensões anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos companheiros, [acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India].
O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo, tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos, e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução[{134}] intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.[{135}]