Este finalmente chegou. Depois de terem por vezes tentado em vão assassinar o rei, os fidalgos assentaram esperal-o em Setubal, ao desembarcar vindo de Alcacer, e realisarem então o seu intento. D. João II, porém, que lhe presentia os movimentos, fez o caminho da Landeira por terra, bem acompanhado pelos ginetes de Fernão Martins, e pelos besteiros e espingardeiros da guarda; e chegando a Setubal no dia 22 de agosto de 1484, mandou logo na manhã seguinte chamar o duque de Vizeu, que pousava em Palmella. Resolvêra, emfim, tirar a mascara, e a explosão devia ser tanto mais terrivel, quanto fôra duradoura e profunda a necessidade de conservar latente, debaixo de superficie[{112}] de gelo, o ardor de odio intenso e concentrado.
Entrando o duque no palacio ao anoitecer, chamou-o el-rei ao aposento que lhe servia de guarda-roupa, e ahi, accusando-o de traição, o matou ás punhaladas, na presença de alguns cavalleiros, que para assistirem a esse acto tinham sido convocados. Na manhã seguinte via-se sobre um estrado, no centro da egreja matriz da villa, o cadaver do duque de Vizeu, com o rosto descoberto e dez feridas de punhal. D'ahi a poucos dias o bispo de Evora, preso na camara da rainha, morria envenenado no castello de Palmella; D. Fernando de Menezes, D. Pedro de Athaide e Pedro de Albuquerque eram degollados na praça publica; e D. Gutterres Coutinho expirava ás mãos do carrasco no fundo de um calabouço. Emfim, passados cinco annos,[{113}] Fernão da Silveira, a quem a nobre dedicação de um amigo salvára do patibulo, cahia assassinado em França por mandado do rei de Portugal.
A negrura de semelhante proceder é evidente; e se as cousas da terra podessem despertar o profundo somno dos mortos, os cadaveres d'esses homens deveriam muitas vezes apparecer á consciencia de D. João II, tornando ainda mais penosas as desgraças, que lhe enlutaram o coração durante os restantes annos do seu curto reinado.[{114}]
VIII
Primeira viagem de Vasco da Gama á India
1497 a 1499
Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os nossos marinheiros e soldados a practicarem[{116}] tantos feitos assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.
O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um d'aquelles factos extraordinarios, de[{117}] que o espirito mais penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os mussulmanos[{118}] iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e Jaoa,[{119}] os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas, perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando, fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas, alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e sectarios do propheta.
Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio, costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não guardasse[{120}] por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como que os preliminares[{121}] dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado. Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.