I

[Fundação da monarchia]

1097 A 1179

Bem como a vida dos individuos a vida dos povos é dilatada ou curta. Assim muitas nações, que existiam robustas e altivas durante a edade média, annullaram-se ou desappareceram, absorvidas umas por estados mais poderosos, desmembradas outras pelas conveniencias politicas; e Portugal, apparentemente[{10}] debil na origem, mas que por milagres d'esforço e de perseverança chegou a constituir a nação mais forte e audaz da Europa, vive ainda, e encontrará a sua defensão em saberem seus filhos repellir, com energia, quaesquer suggestões traiçoeiras ou tentativas violentas contra a terra que livres herdaram, e onde livres querem morrer.

Qual tem sido, porém, a causa d'essa longa vida, d'esse vigor da juventude e da edade viril, d'essa tenacidade que se conserva ainda no seio da decrepidez? É o que procuraremos descobrir, examinando rapidamente a historia dos seus primeiros annos.

Logo que o imperio wisigodo se desmoronou ao embate impetuoso do fanatismo dos arabes, a reacção christã e europêa começou immediatamente. Desde a batalha do Chryssus até o[{11}] recontro de Cangas de Onis mediou curto espaço, mas tanto bastou para que os mussulmanos gastassem nas dissensões intestinas o provado valor, e para que os godos, retemperados pelo infortunio, recuperassem a ousadia e firmeza, que são as mais seguras armas dos povos ameaçados na sua existencia. O poderio christão foi, pois, crescendo de novo e prosperando, lenta mas persistentemente, e já, meado o seculo XI, Affonso VI, reinava sem resistencia nas Asturias, Galliza, Leão e Castella, e conquistava ou fazia tributarias as principaes cidades e provincias dos sarracenos da Peninsula.

Para as suas guerras brilhantes muitos cavalleiros francezes atravessaram os Pyrineos. Impellia-os a tendencia guerreira e aventurosa da epocha; animava-os a idéa religiosa, que attrahia a pelejar contra os infieis quantos homens[{12}] de fé viva tinha n'esse tempo a Europa; dava-lhes esforço, por ventura, a esperança de encontrarem fortuna n'um paiz onde, no tumultuar de incessantes combates, se offereciam frequentes conjuncturas para adquirir riqueza e gloria. Entre os estrangeiros mais notaveis vieram a Hespanha Raymundo, conde de Borgonha, e Henrique seu primo co-irmão. Ao primeiro deu Affonso VI em casamento sua filha D. Urraca, havida da rainha Constancia, encarregando-o ao mesmo tempo do governo da Galliza e da terra portugalense; a Henrique concedeu D. Thereza, sua filha bastarda e da nobre dama Ximena Muniones, entregando-lhe com esta alliança o governo do districto de Braga, como condado dependente de seu primo. Em breve, porém, todo o territorio desde as margens do Minho até o Tejo foi destroncado[{13}] definitivamente da Galliza, para constituir um vasto senhorio, regido pelo conde Henrique, e sujeito apenas á supremacia da corôa leoneza.

O illustre cavaleiro francez, que via realisados os seus designios ainda para além do que imaginára, applicou provavelmente então toda a actividade á guerra com os sarracenos, e posto que a viagem que emprehendeu á Syria nos primeiros mezes de 1103 devesse retardar a sua influencia e conquistas, é certo que já em 1106 havia concebido as idéas de engrandecimento e independencia, a que deveu acaso Portugal a sua existencia como nação. O pacto secreto celebrado entre elle e Raymundo para a repartição dos estados do sogro, alliança que a morte do conde de Galliza inutilisou; as sollicitações perante Affonso VI moribundo;[{14}] e finalmente o modo por que soube valer-se das discordias civis, a que o fallecimento do rei de Leão deu origem, ligando-se ora com D. Urraca, ora com o monarcha de Aragão, e ainda com os fidalgos de Galliza, traduzem um pensamento unico:—converter o senhorio, que lhe fôra concedido para reger como simples consul, em nucleo de um poderoso estado ao occidente da Europa. E no meio das tempestades politicas, que varreram o solo ensanguentado da Peninsula durante o governo de D. Urraca, teria decerto satisfeito essa arrojada ambição, se a morte não viesse ceifar-lhe os designios junto dos muros de Astorga.

Fallecido Henrique (1 de maio de 1114) e contando o infante Affonso Henriques apenas tres annos de edade, tomou D. Thereza o governo, e[{15}] com elle o encargo de continuar a obra politica do marido. Apresentava-se ardua e arriscada a empreza, mas a filha de Affonso VI não desdizia das nobres tradições da sua raça. A leôa defendeu o antro com o ardor e constancia de que seu fero senhor lhe deixára assombrosos exemplos. Cercada dos seus vassallos, identificada com certo instincto de nacionalidade, que já então animava todos, ambiciosa, astuta, energica e tenaz, luctou durante quatorze annos para conservar intacta a independencia da terra que lhe chamava rainha. Submettendo-se ao rigor das circumstancias, inclinou por vezes o collo á soberania da côrte leoneza; mas não hesitando em quebrar solemnes promessas, o que aliás era frequente n'esses tempos de bruteza, e ainda hoje não é raro a despeito da civilisação, recusou sempre[{16}] a obediencia quando julgou possivel resistir. Seguindo, emfim, o caminho traçado pelo conde Henrique, alimentou habilmente rivalidades e rancores entre sua irmã D. Urraca, e o cubiçoso e soberbo bispo de Compostella, e não obstante os damnos e calamidades provenientes das invasões de christãos e sarracenos, augmentou a extensão dos seus dominios ao oriente e ao norte, dando-lhes ao mesmo tempo incremento em população, em riquezas e em forças militares.

A affeição intima a Fernando Peres, um dos mais illustres ricos-homens da Galliza, quebrou-lhe nos ultimos annos a cadeia brilhante de uma vida aventurosa e feliz. Esquecida de que o terrivel neto de Roberto de Borgonha deixára no mundo um successor do seu genio, a formosa rainha entregára ao amante a administração dos[{17}] districtos do Porto e Coimbra, e é de presumir que lhe outorgasse tambem a supremacia sobre os outros condes ou tenentes do paiz. Nenhum acto indica, talvez, que a intervenção de Fernando Peres fosse desleal ou funesta para a independencia da provincia, que procurava desmembrar-se dos vastos estados leonezes; mas a fortuna do valido excitára desde o principio o descontentamento e ciume dos barões portuguezes, e estes, aproveitando o enthusiasmo de nacionalidade já então radicado no povo, e a sede de poder que devorava Affonso Henriques, lançaram entre a mãe e o filho o facho da discordia, e accenderam a guerra civil, quer conforme todos os indicios, começou em 1127, para se decidir, decorrido um anno, na batalha do campo de S. Mamede, junto de Guimarães, onde o exercito de D. Thereza[{18}] foi desbaratado, e ella ficou prisioneira.