Assumindo o poder que tanto ambicionára, o moço principe não se limitou a recusar obediencia ao rei de Leão, cujo dominio toda a Hespanha christã e ainda parte da França mais ou menos reconheciam; ousou invadir por vezes as provincias limitrophes, fundando-se, por ventura, nas convenções feitas com seu pae, e sobretudo na posse que D. Thereza tivera dos districtos de Limia e Tuy. No meio de graves difficuldades, Affonso VII, que por morte de D. Urraca empunhára irrevocavelmente o sceptro de Leão e Castella, não poude a principio impedir essas correrias, nem procurar submetter seu primo; mas em breve, favorecido pela fortuna, aprestou um numeroso exercito, e dirigindo-se aos territorios de Galliza, avassallados[{19}] pelos portuguezes, repelliu de toda a provincia os invasores. Entretanto, apesar das vantagens obtidas, não se attreveu a proseguir na aggressão, e Portugal, que n'aquelle tempo abrangia apenas metade do actual territorio, conservou sempre hasteado o pendão da independencia.

Assim duraram as cousas até que o anno de 1137 viu de novo rebentar a guerra. Seguindo a direcção do enthusiasmo popular e a do seu genio inquieto e bellicoso, Affonso Henriques alliou-se com os condes Gomes Nunes e Rodrigo Peres e com o monarcha de Navarra, e em quanto este, quebrando a especie de vassallagem que prestára, rompia as hostilidades contra Affonso VII, o principe portuguez caminhava de victoria em victoria, sujeitava os districtos meridionaes da Galliza, desbaratava os mais illustres[{20}] capitães inimigos, e iria ávante em novas conquistas, se a tomada de Leiria pelos sarracenos e as suas tragicas consequencias não lhe attrahissem a attenção para a defensa dos proprios estados.

Depois de asserenada a tempestade, que expunha parte das fronteiras ás irrupções dos arabes, Affonso Henriques voltou a Galliza, onde já estava tambem o rei de Leão; mas avistando-se em Tuy, os dous primos celebraram pazes, e como de accordo volveram os olhos para mais nobre empreza:—o proseguir n'essa longa, patriotica e tenaz cruzada da Peninsula contra os mussulmanos, lucta encetada havia mais de quatro seculos, e cujas probabilidades de completo triumpho já claramente se mostravam favoraveis áquelle dos dous contendores, que, combatendo pelo christianismo, tinha[{21}] por si a força e o enthusiasmo, fructo de convicções profundas e da certeza moral do dever.

A guerra contra os infieis foi favoravel ao filho do conde Henrique. [Penetrando até o coração do Al-Gharb], onde nunca desde a invasão dos arabes os christãos haviam chegado, ganhou a batalha de Ourique, e saldou assim com os sarracenos os ultimos damnos recebidos. A tradição engrandeceu a pouco e pouco o facto, exaggerando o numero dos vencidos, inventando apparições e milagres, e tecendo uma notavel lenda, que as regras da boa critica historica irrefutavelmente condemnam. Se as circumstancias, porém, são fabulosas, nem por isso foram pouco importantes os resultados moraes d'essa batalha, que, habituando os portuguezes a affrontar em campanha os agarenos, lhes deu[{22}] animo e vigor para futuras conquistas.

Terminada esta empreza, volveu o intrepido principe á lucta com os leonezes. Apoz varios successos, em que a fortuna das armas ora pendeu para Affonso VII, ora para o infante de Portugal, o grosso dos dous exercitos avistou-se perto de Valdevez; mas o captiveiro dos mais notaveis fidalgos de Leão, que em recontros singulares foram vencidos, a conhecida ousadia dos cavalleiros. e homens d'armas portuguezes, e emfim a vantajosa posição que estes occupavam, tudo isso e talvez algumas outras causas, que as memorias do tempo nos não dizem, constrangeram o orgulhoso filho de D. Urraca a sollicitar a paz. Ajustaram-se então tregoas, deu-se liberdade aos prisioneiros, restituiram-se os castellos reciprocamente conquistados, e[{23}] os dous principes abraçaram-se no campo de batalha.

Estes acontecimentos converteram a separação de Portugal em facto consummado e completo. Tomando o titulo de rei, que havia muitos annos recebia já dos seus subditos, Affonso Henriques realisou, em fim, o altivo pensamento concebido por seu pae, desenvolvido largamente por D. Thereza, e abraçado com ardor pelos barões portuguezes; e quando em 1143 os dous primos assentaram em Samora uma concordia definitiva, o imperador das Hespanhas ou de toda a Hespanha, como se intitulava nos seus diplomas Affonso VII, não poude escusar reconhecer a realeza do principe que pozera magestoso remate no edificio da independencia portugueza.

Prevendo, todavia, futuras disputas sobre a legitimidade d'esse facto, que[{24}] aliás nem as armas nem os tractados tinham conseguido impedir, Affonso I resolveu collocar o throno á sombra do solio pontificio. N'aquelles rudes tempos, em que a exaltação das crenças se associava intimamente com a ferocidade e soltura dos costumes, o poder dos papas tornára-se uma especie de dictadura, que todos os monarchas christãos directa ou indirectamente reconheciam; e a influencia da côrte de Roma era a espada suspensa por um fio sobre os thronos mais firmes, e ao mesmo tempo como que a columna de fogo, que dirigia as dynastias recentes na carreira das suas ambições. Acceitando as doctrinas theocraticas então por assim dizer incontestadas, e aproveitando-as para o intento quasi exclusivo a que se votára, o novo soberano fez homenagem do reino ao summo pontifice, promettendo[{25}] obediencia a S. Pedro, sujeição nominal mais supportavel do que o preito ao imperador; e depois de longas evasivas e ambiguidades, vicio que já então caracterisava a politica da sé apostolica, alcançou a confirmação da dignidade real por bulla de Alexandre III de 23 de maio de 1179.

A esse tempo havia já o monarcha comprado o titulo por bem caro preço em quarenta annos de lides contra os infieis. Depois da larga campanha com o imperio leonez os portuguezes tinham escolhido para theatro das suas emprezas os territorios sarracenos; á lucta de desmembração succedêra a de assimilação; e as conquistas de Santarem, Lisboa, Cintra, Almada e Palmella em 1147, as de Alcacer do Sal e de Beja em 1158 e 1162, e finalmente as de Evora, Serpa, Moura e Aljustrel em 1166 haviam constituido[{26}] a nacionalidade portugueza com a seiva e robustez bastantes para resistir ás procellas que agitavam a Peninsula.

Taes são os lineamentos capitaes da historia da fundação da monarchia. Julgando imparcialmente os homens e as cousas, não hesitâmos em affirmar que o esforço dos portuguezes neste longo periodo é uma das manifestações mais solemnes dessa tenacidade heroica, que nem se inebria com o triumpho nem desanima com os revezes; desse affecto generoso e altivo, que nos leva a luctar com a fome, com a sede, com a morte para defender a terra que cobre as cinzas de nossos paes; dessa abnegação nobilissima, que no meio da rudeza da epocha constitue gloria pura e immarcessivel. Volvamos, pois, os olhos para as velhas glorias da patria. O tracto dos que foram grandes e fortes[{27}] livrar-nos-ha, talvez, do lethargo febril que nos consome, revocar-nos-ha, por ventura, á energia social e aos vividos affectos de nacionalidade. No meio da indifferença ou do terror, que cérca a geração actual, ouvem-se como que umas melodias suaves que vem consolar-nos dos males que nos affligem, e dar-nos animo e ousadia para arrostar as tempestades que se enxergam no futuro. É o cantico de recordações que nos legou o passado, recordações tanto mais fecundas, quanto nos alimentam a esperança de que este paiz tem ainda nobres destinos a cumprir antes de se envolver na bandeira do fundador da monarchia, e de ir, emfim, occupar no cemiterio da historia o largo jazigo das nações que morrem.[{28}]

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