II
Ultimos annos de D. Sancho II
1245 A 1247
Era deveras tumultuaria a situação do reino na epocha que pretendemos esboçar. Bandos de salteadores, para quem o viver era acaso e a morte espectaculo quotidiano, assolavam os campos, infestavam as povoações, e refugiando-se nos logares do asylo zombavam do castigo; os officiaes publicos, attentos principalmente a saciar a propria crueldade e cubiça, commettiam em nome do fisco toda a casta de prepotencias;[{30}] e a propriedade, invadida e devastada, em vão pedia segurança e invocava as leis. Na côrte o desbarate das rendas publicas tornava desastrado e temeroso o estado da fazenda, os ministros succediam-se rapidamente, e as luctas de valimento multiplicavam-se, não se astringindo á guerra de tenebrosos enredos, mas semeando cruentas discordias, que depois encontravam nos solares, nos mosteiros, nas municipalidades, [nos herdamentos, nas maladias, nos páramos] terreno fertil para germinarem, crescerem e fructificarem. A anarchia, emfim, era por todo o paiz como os fogos de terreno vulcanico; ao passo que n'uma parte se extinguia o incendio, rebentavam em outras turbilhões de chammas.
Dotado de indole generosa, D. Sancho II procurára ao principio attrahir[{31}] todos os animos turbulentos e ambiciosos para um pensamento unico, collocando-se á frente dos barões, dos cavalleiros nobres, dos homens d'armas, da cavallaria e besteiros dos concelhos para continuar a guerra de crença e de raça, no seio da qual a nação surgira, e que parecia ser para ella um dos primeiros elementos de vitalidade e robustez. Nos campos de batalha, sobresahindo entre os guerreiros mais esforçados, mostrára-se digno neto do fundador da monarchia, conquistára muitas povoações mussulmanas de grande monta, taes como Elvas, Serpa, Jurumenha, Aljustrel, Arronches, Mertola, Ayamonte e Tavira, e finalmente dera á auctoridade real o prestigio das victorias; mas as desordens do governo interno invalidaram em grande parte o resultado das batalhas com que se dilatavam as fronteiras[{32}] pelos dominios sarracenos. Depois o principe, que durante largo espaço quasi nunca descançára a espada de conquistador, e que ao mesmo tempo pretendêra pôr em pratica as severas leis de seu pae com relação ao clero, deixára esmorecer o esplendor da gloria em annos de indolente repouso; e os prelados portuguezes, aproveitando os descontentamentos e perturbações que enfraqueciam a acção da corôa, começaram a trabalhar com fundada esperança n'essa longa têa de enredos, de corrupção e de hypocrisia, cujo remate tinha de ser a deposição do monarcha.
Varias circumstancias, dentro e fóra do paiz, favoreciam mais ou menos os designios facciosos. Consistia a principal na situação em que estava o papa, cuja intervenção era indispensavel, não obstante já ter Roma perdido,[{33}] pela dobrez e perfidia da sua politica, grande parte da força immensa que havia conseguido com as virtudes austeras dos primitivos padres. A Gregorio IX succedêra na thiara Innocencio IV, intelligencia vasta e energica, mas irascivel, ambiciosa e indomita, que logo mostrára querer sustentar com vigor as antigas doutrinas de Gregorio VII e de Innocencio III. Era o novo papa affeiçoado a Frederico II, imperador da Allemanha, mas este só viu no exito da eleição a perda de um amigo, e não teve esperança de que terminassem as luctas implacaveis e freneticas, que, accendendo a irritação em todos os animos, dividiam o sacerdocio e a realeza. De feito, depois de muitas negociações e tumultos, Innocencio, perseguido e expulso de Italia pelo imperador, e repellido de França por S. Luiz, de Hespanha pelo[{34}] rei de Aragão, de Inglaterra por Henrique III, [dirigiu-se a Lyão], e ahi tractou logo de reunir um concilio para depôr Frederico. No seu animo deviam, pois, causar profunda impressão as amargas queixas dos prelados portuguezes, e movel-o a desthronisar o principe que ousava resistir ao poder ecclesiastico, esquecendo-se não só de que a sociedade civil era apenas imagem grosseira da sociedade catholica, mas até do signal de vassallagem, que outr'ora se offerecêra á sé apostolica, e que tornava o paiz de certo modo tributario do solio pontificio.
As circumstancias internas favoreciam tambem a empreza. Os interesses oppostos, os ciumes do poder, os odios que resultavam da vehemencia das paixões, a cubiça, a soltura de costumes, o amor de licenciosa independencia, todas as desordens communs[{35}] em tempos de ignorancia e fereza, achavam então ensejo favoravel para se patentearem com audacia; muitos fidalgos, além dos que haviam seguido a França o conde de Bolonha, eram adversos a D. Sancho; e o povo, offendido pelo esforço brutal com que os nobres exerciam impunes tanta oppressão, quanta lhe permittiam a extensão dos seus dominios e a fortaleza dos seus castellos, parecia indifferente á sorte do monarcha. Finalmente D. Sancho, impellido pela mais energica das paixões humanas, o amor contrariado e impetuoso, casára com a viuva de Alvaro Peres de Castro, D. Mecia Lopez, filha do senhor de Biscaya, Lopo Dias de Haro, e de D. Urraca, bastarda de Affonso IX de Leão; e esse consorcio augmentára ainda a desorganisação interna do reino, pela desigualdade da alliança, e pelas emulações[{36}] e despeitos que desde logo suscitára.
Em tal conjunctura só faltava aos conspiradores encontrar um chefe, capaz de substituir no throno o desditoso monarcha. D. Affonso, irmão de D. Sancho, e conde de Bolonha pelo seu casamento com a condessa Mathilde, foi o indigitado. Talento militar e politico, fôra elle um dos que mais se tinham distinguido na famosa batalha de Saintes, dada por S. Luiz a Henrique III de Inglaterra; ambição energica e tenaz, podia pela nobreza do nascimento, pela indole altiva e valorosa, e pela influencia dos fidalgos que de Portugal o haviam acompanhado, reunir em volta de si todos os interesses feridos, e ser efficaz instrumento do trabalho dos conjurados.
Julgando, portanto, o terreno preparado, e tendo a quasi certeza de[{37}] realisar amplamente esperanças por muito tempo affagadas, partiram para Lyão os prelados do Porto e de Coimbra e outros descontentes a reunir-se com o arcebispo de Braga, e ahi se queixaram ao pontifice, attribuindo a D. Sancho o estado lastimoso a que havia chegado o reino. Acolheu Innocencio de bom grado os prelados portuguezes, predisposto já em seu favor pelas negociações anteriores, expoz o assumpto ao concilio, e na semana immediata ao encerramento d'essa notavel assembléa, expediu aos barões, concelhos, cavalleiros e povo de Portugal uma bulla, declarando os varios delictos praticados por D. Sancho, e nomeando para a regencia do reino o conde de Bolonha.
Escudado com as comminações do pontifice, e depois de ter assignado as vergonhosas promessas de subserviencia[{38}] ao poder absoluto, illimitado, omnimodo do clero, promessas que só esqueceu quando viu que o podia fazer sem perigo, partiu D. Affonso para Portugal, onde de feito chegou nos principios de 1246. Não alcançou, porém, immediatamente a realisação dos seus desejos. Muitas povoações importantes sustentaram seu preito ao monarcha, muitos cavalleiros-villãos e besteiros dos municipios resistiram á usurpação, e entre os proprios membros do clero encontrou D. Sancho quem não fraqueasse ante as poderosas armas do conde de Bolonha, e o stygma espiritual das censuras.