Em presença do perigo, o orgulhoso Affonso XI tractou de celebrar pazes com o sogro e de lhe sollicitar a alliança, a fim de resistir á procella que ameaçava rebentar sobre os seus estados. Cedendo á força das circumstancias, e humilhando-se perante aquella que tanto offendêra e ainda odiava, enviou sua mulher a el-rei de Portugal, rogando-lhe prompto e poderoso auxilio; e depois veiu elle proprio pedil-o, ponderando a multidão dos barbaros, o aperto do sitio em que estava Tarifa, o risco com que se defendiam os cercados, e o muito que importava a brevidade de soccorro, da qual dependia talvez a sorte de toda a Hespanha. Satisfez D. Affonso IV a instante[{48}] supplica, e dentro de breve tempo partia para Sevilha, á frente de uma lustrosa companhia de gente escolhida, posto que pouco numerosa, adiantando-se ao grosso do exercito, que tinha de marchar mais lentamente por causa dos petrechos de guerra e provimentos.

Juntos os dous monarchas, convocaram-se os prelados, os barões, os mestres das ordens militares, os ricos homens, e entre todos se disputou a conveniencia de soccorrer Tarifa. O susto fez ahi seu officio, e muitos aconselharam se entregasse a praça aos mouros como condição de paz, evitando-se uma lucta, que n'aquella conjunctura só por milagre não seria funesta. Venceu, porém, o voto contrario, que foi o do rei portuguez e o dos seus vassallos, e depressa o enthusiasmo substituiu pela confiança o[{49}] temor. Achavam-se ali reunidos os principaes cavalleiros das duas nações rivaes; tinham de ser julgados uns pelos outros; tinham de se julgar mutuamente; e tanto bastou para que a emulação d'esforço se accendesse em todas as veias, exaltasse todos os animos, dominasse todas as vontades. Resolvida, pois, a guerra, dirigiram-se sobre Tarifa os dous monarchas, fazendo pequenas jornadas por esperarem as tropas que de instante a instante engrossavam o exercito; e no dia 27 de outubro, ao cahir da tarde, avistaram, emfim, a multidão dos infieis, cujas tendas, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos outeiros, formavam como que uma cidade vastissima, cercada por selva de lanças.

Logo que nas asperas cumiadas de Peña del Ciervo fluctuaram os pendões de Castella e de Portugal, juntos ao[{50}] estandarte da cruzada, as tropas mussulmanas, que se calculavam em sessenta mil homens de cavallaria e quatrocentos mil infantes, unindo-se com a rapidez do relampago e deixando o recinto das tendas, arrojaram-se para as margens do Salado, e ahi aguardaram firmes o acommettimento dos inimigos. A noite, porém, aproximára-se, e os principes christãos não quizeram no meio das trevas começar a terrivel batalha, em que a fortuna das armas tinha de resolver se os filhos da Peninsula deviam de novo curvar-se ao jugo dos africanos.

No dia seguinte já o sol ia alto, quando o som das trombetas, dos tambores, das charamellas, dos anafis, dos atabales deu o signal de combate. O exercito portuguez, entoando o psalmo Exurgat Deus, arremeça-se pela planicie, transpõe o rio por entre milhares[{51}] de frechas, que sibilam nos ares como saraiva espessa, e encontrando-se com a hoste do rei de Granada trava uma lucta implacavel, frenetica, vertiginosa. No meio da ebriedade do sangue, baralham-se amigos e inimigos; as espadas faiscam nas espadas; as lanças, topando em cheio nos escudos, nos capacetes, nos arnezes dão um som profundo, que se mistura com o estalar d'aquellas que voam despedaçadas; muitos ginetes correm á solta, nitrindo d'espanto e de terror; muitos cavalleiros pelejam a pé; e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão fendidos e amolgados. A final os mussulmanos vacillam, e as suas fileiras, vergadas em semicirculos, recuam ante a gente portugueza, ondeam, espalham-se e abandonam o campo, procurando na fuga a salvação. Por outro lado as tropas castelhanas, capitaneadas[{52}] pelo principe de Vilhena D. João Manuel, dirigem-se contra o exercito de Abul-Hassan, e depois de renhida peleja conseguem romper aquellas grossas muralhas de homens, affoutos e impavidos no primeiro conflicto, mas incapazes de resistir tenazmente ao embate incessante dos cavalleiros christãos, que, poucos mas bem armados, investem como leões onde mais acceso vae o travar da batalha. Não ignoram elles que da sua audacia depende nessa hora talvez a sorte e a gloria da patria. Emfim a guarnição de Tarifa, sahindo da fortaleza, apodera-se dos arrayaes mouriscos; fere, mata, vence quasi sem combate os que encontra; e derrama assim a ruina entre os inimigos, que, no meio de completa anarchia, chegam a pelejar uns contra os outros, ou expiram sem defensa nem gloria debaixo[{53}] dos pés dos cavallos e dos troços de infanteria.

Então o terror consumma o desbarato; e, pela volta da tarde, apenas do brilhante exercito dos mouros de Africa e de Hespanha alguns milhares de fugitivos, acompanhando os reis de Fez e de Granada, correm desalentados diante dos cavalleiros christãos, que os perseguem incançaveis até perto de Algeziras.

Grande numero de mussulmanos ficaram captivos, e foi immenso o despojo em ouro, prata, armas e preciosidades de toda a casta. Convidado a escolher d'entre essas riquezas a parte que lhe aprouvesse, D. Affonso IV acceitou sómente alguns alfanges e bandeiras, e um clarim que pertencêra ao rei de Granada. Os despojos, porém, daquella famosa batalha constituiam o preço de menos valia para o[{54}] monarcha portuguez. Mais graves eram, sem duvida, os resultados de ordem moral. Sahindo victorioso da empreza em que nobremente se empenhára, D. Affonso IV cingira-se ás tradições, por tanto tempo esquecidas, das instituições wisigothicas, que consideravam como dever impreterivel do principe estar sempre á frente dos seus subditos, na hora dos grandes perigos e das grandes glorias; renovára o brado de guerra contra os infieis, que parecia ter de todo emmudecido desde a conquista do Algarve; patenteára ao rei de Castella qual era ainda a ousadia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes; e sobretudo livrára a Peninsula da invasão dos africanos, e dera a estes uma aspera demonstração de que não era empreza facil, nem talvez possivel, subjugar de novo a Hespanha e o christianismo.[{55}]

IV

Morte de D. Maria Telles

1377

De todas as obras da creação é a mulher aquella em que mais profundamente está gravado o verbo indefectivel e supremo da providencia omnipotente. O seu nome resoa-nos como o de um ente predestinado para nos servir de guia e amparo nos trabalhos e alegrias da vida; as suas graças infiltram-se por cada sentido, e são para cada desventura um balsamo, para cada descrença um milagre;[{56}] o gesto, a voz, os meneios, o volver de olhos, a ternura do sorrir, o perfume e brilhantismo dos cabellos, tudo tem encanto indecifravel, que domina as vontades mais isentas; mas no coração principalmente é que ha thesouros inexhauriveis de generosidade e innocencia, e uma suave melancolia, que parece não ter objecto, e que só é por ventura a saudade incerta mas indelevel da sua origem divina. No meio das tempestades da existencia acalma-nos as aspirações insensatas, as paixões fervidas, as esperanças mesquinhas e heterogeneas, e consegue salvar-nos de nós mesmos, esquecendo resignada as proprias dores, e exaltando-nos pela ternura e pela constancia ás regiões ideaes e bem-aventuradas do puro sentimento. Ás vezes, porém, anjo despenhado, a mulher[{57}] arrasta-nos comsigo; devora-nos, entre fingidas lagrimas e seductoras caricias, os annos, a energia, os nobres affectos, os sentimentos honestos, as noções da verdade e do dever; suscita-nos, desenvolve-nos, completa-nos as más paixões e os ruins instinctos, e faz com que aquelle, a quem um louco amor fascina, desça ao infimo grau da abjecção. Uma dessas mulheres, excepções que infelizmente não são raras, foi decerto Leonor Telles, de cuja terrivel historia, longa iliada de crimes, procuraremos narrar um episodio.