A affeição cega de D. Fernando havia já annos que tinha satisfeito as ambições da mulher de João Lourenço da Cunha, alma soberba e ousada, cubiçosa e perfida, que não se contentára de vêr a seus pés, desvairado pela paixão, o moço e generoso monarcha.[{58}] A corôa real, por tantas vezes divisada em sonhos, sentia-a, emfim, segura na formosa fronte; os ultrages, que recebêra durante a lucta, lavára-os largamente com o sangue dos homens que mais odiava; e perante o seu olhar, sublime de altivez e energia, não havia cabeça que se não curvasse, nem coração que não estremecesse.
Fôra-lhe para isso preciso supplantar considerações sagradas; vencer obstaculos poderosos; derramar pelo reino a devastação e a miseria; aviltar o homem que tudo lhe sacrificára, riquezas, poderio, gloria, a honra propria e a do nome herdado; mas que importam desgraças alheias a um animo profundamente egoista? As balizas, que separam a iniquidade e a justiça, o crime e a virtude, a abominação e a sanctidade, desapparecem aos olhos[{59}] do espirito reconcentrado n'um pensamento unico, e contra uma vontade assim inabalavel póde haver difficuldades, mas não ha impossiveis. Um processo de divorcio, julgado por juizes affectos a D. Leonor, livrára-a de seu primeiro marido, que atterrado fugira da patria. O repudio da infante de Castella, cujo casamento fôra contractado em celebração de pazes, annullára o outro obstaculo. A alliança com o duque de Lencastre, tractado impolitico e perfido, que só póde disculpar-se por ser obra de animo turbado por suggestões estranhas, fizera com que D. Henrique, entrando de repente em Portugal, tomasse Almeida, Pinhel, Linhares, Celorico e Vizeu, atravessasse a Beira, offerecesse proximo a Santarem batalha a el-rei D. Fernando, que este não ousou acceitar, e cercasse e destruisse na sua[{60}] melhor parte a capital do reino, realisando assim os calculos de fria e paciente vingança, que o instincto de tigre ensinára a D. Leonor pelas affrontas ahi recebidas. Finalmente a influencia irresistivel da rainha no espirito fraco do soberano conservára na côrte só aquelles d'entre os nobres, que por sympathia, por gratidão, por temor, por intuitos interesseiros ou por ligações de parentesco se mostravam inclinados á nova ordem de cousas, e substituira á severidade dos antigos tempos o brilho e a devassidão de uma côrte voluptuaria.
Apesar de tudo, porém, no regaço da opulencia e do poder, essa mulher, ora hypocrita e vil, ora insolente e orgulhosa, receiava a cada instante ver derrubado o edificio da sua fortuna, cimentado com o sangue de tantas victimas. Quando a vida lhe sorria sómente[{61}] esperanças e venturas, parecia que descortinava no horisonte a victoria definitiva dos adversarios, e acaso se lembraria de que semeára odios na terra, e de que ainda não colhêra o fructo.
Entre os nobres que mais temia contavam-se os filhos de D. Ignez de Castro. D. Diniz, o filho predilecto do rei justiceiro, achava-se em Castella, e era odiado pelo povo que aos seus conselhos attribuia a invasão de D. Henrique em Portugal. D. João, todavia, era geralmente bem quisto, e no caso de fallecer o monarcha, podia ser um emulo poderoso contra os direitos da filha de D. Leonor. Demais, levado por amor que reputava sincero, e que talvez então o fosse, o infante casára clandestinamente com D. Maria Telles, a qual, apesar de não ter já o viço da primavera da[{62}] vida, conservava ainda a flor e a graça de uma formosura rica de seiva, pura nas fórmas, e dotada do enlevo que mais prende e mais seduz, o de uma alma cheia de bondade e affecto.
Irmã da rainha e viuva de Alvaro Dias de Sousa, fidalgo illustre e de linhagem real, D. Maria era respeitada pela severa virtude do seu caracter, e querida pelas mercês que fazia, para as quaes lhe subministravam fartos meios as rendas das suas muitas propriedades, e as do mestrado de Christo, que lhe fôra dado para o filho, e que em grande parte usufruia. Vendo-a, e accendendo-se-lhe a imaginação com essas mil seducções, concedidas pela natureza ao sexo fragil, para que não haja alma que se lhe não franqueie, ousára o infante confessar-lhe o seu amor, e como a[{63}] bella viuva, entre indignada e piedosa, lhe respondesse que de reis tambem vinha ella, e que não era dama que se sacrificasse aos devaneios ephemeros de um capricho, crescêra com os rigores o affecto, e D. João recebêra-a por mulher, celebrando um desses casamentos clandestinos, vulgares na epocha que tentâmos descrever, epocha em que a hypocrisia estava já longe de ser tão rara como geralmente se cuida, posto que as paixões ainda se mostrassem muitas vezes grosseiras, impetuosas, indomitas.
Chegada a noticia ao conhecimento da rainha, esta em vez de se lisongear com tal consorcio, que lhe podia servir de esteio na situação a que se tinha elevado, julgou-o contrario aos planos que formára para collocar na cabeça da filha a corôa de D. Fernando, e desde logo a morte da irmã foi resolvida.[{64}] N'aquelle peito de marmore só existia um sentimento sancto e suave, o amor materno; e esse mesmo affecto apenas lhe inspirou o desenho de novos crimes. Como conseguir, porém, sacrificar a irmã, e desfazer ao mesmo tempo o favor popular de que D. João já gosava pelo genio aventuroso e esforçado? Soprando na alma d'este as duas paixões mais ferozes do coração humano, a ambição e o ciume.
N'uma conferencia com o infante communicou-lhe João Affonso Tello, irmão da rainha e inteiramente dedicado aos seus interesses, que esta desejára a sua alliança com a princeza Beatriz, e que se o casamento d'elle infante não tivesse vindo destruir designios e projectos de longo tempo affagados, a preferiria muito á do duque de Benavente, principe de origem[{65}] castelhana, odiosa por em quanto aos portuguezes, em cuja memoria não se tinham desvanecido antigas inimisades, e cruentos e recentes aggravos.
A perfida insinuação produziu o desejado exito. Dominado pela cubiça de succeder no throno depois da morte do irmão, o filho de Ignez de Castro só pensou nos meios de se livrar da que havia escolhido por mulher, mais n'um impeto de ardor brutal e ephemero, do que por esse affecto intenso e intimo, que se dilata com sereno contentamento até os extremos horisontes da vida. Acceitando como verdadeiras accusações injustissimas, ou, o que por ventura está mais proximo da verdade, creando elle proprio essas calumnias, partiu logo para Coimbra, onde então estava D. Maria Telles, e dirigindo-se a furto ás casas que esta habitava, mandou[{66}] arrombar as portas. Acordada de subito, a irmã de D. Leonor levantou-se assustada e afflicta, e envolvendo-se n'uma colcha que lhe cobria o leito, perguntou ao infante a causa d'aquelle procedimento que tanto a offendia. Na voz, no gesto, nas lagrimas da desditosa mulher traduzia-se a innocencia e a candura; no arrebatamento de pudor e de colera, que lhe abrasava as faces, havia um energico protesto contra a suspeita infame; mas D. João tornára-se inaccessivel á justiça e á piedade. Accusando-a em altas vozes de divulgar o segredo do seu casamento e de trahir a fé conjugal, arrancou-lhe a unica vestidura que lhe velava a formosa nudez, e com um bulhão, com que nas vesperas o presenteára o conde de Barcellos como que indicando-lhe o destino, a feriu no seio e no ventre. Um grito indizivel[{67}] de angustia partiu dos labios da pobre victima, que, cerrando para sempre os olhos enxutos, porque n'elles a afflicção estancára as lagrimas, teve apenas tempo para invocar com o ultimo suspiro a misericordia de Deus.
Então em todos os rostos se viu pintado o espanto e o terror; a triste noticia percorreu logo a cidade, e no povo a irritação dos animos depressa chegou ao seu auge, mas o infante já havia sahido de Coimbra, e dentro de pouco tempo, tendo alcançado o perdão d'el-rei, era acolhido na côrte, como se não tivesse sido o assassino feroz de sua mulher. Entretanto só para arrependimento lhe serviu o crime commettido. Lançado o cadaver da irmã sobre a estrada por onde suppunha que a filha subiria ao throno, D. Leonor Telles nem tratou[{68}] de disfarçar quanto se inclinava de preferencia ao casamento de Beatriz com um principe castelhano; e o infante, perdida de todo a fé no amparo e protecção da côrte, fugiu para as provincias do norte, e d'ahi para Castella, onde acabou a vida no meio da saudade e dos remorsos, justa punição que se tornou ainda mais dura, quando depois da morte de D. Fernando conheceu que tinha destruido toda a possibilidade de succeder no throno, ao qual de certo o elevaria o povo se não fôra o seu crime.
Nos livros dos chronistas e nos contos populares se perpetuou esta triste historia; e ainda hoje no antigo castello dos templarios, theatro do tragico successo, se mostra o quarto onde foi assassinada a boa e desditosa irmã da nossa Lucrecia Borgia.[{69}]