Logo a influencia da Religião sobre a Politica dos Governos era nenhuma; e os Pregoeiros do Evangelho não fazião mais que exterminar vicios, plantar virtudes, destruir erros, e ganhar conquistas para o Ceo.
Se os Papas e os Bispos tiverão no andar do tempo uma influencia mui positiva em os negocios politicos, foi porque os Reis assim o quizerão; e talvez porque assim convinha aos interesses da Europa naquelles tempos, assim como hoje convem ao Systema Representativo de Portugal nomear os Bispos para Pares do Reino. Porém o espirito da Religião nada influe sobre essas cousas; e nem responde pelos resultados da maior, ou menor influencia, que os Reis dão ao Sacerdocio sobre os Negocios do Imperio. A Religião não olha para Systemas Politicos; olha para a salvação dos homens: o seu Reino he eterno; e os seus Dogmas fundamentaes não são variaveis, e sujeitos á vicissitude dos tempos, como os Dogmas da Politica terrena. Cessem pois os amigos, ou inimigos{10} da Religião de affirmar que ella tem huma influencia positiva sobre os systemas de Governo. A sua influencia he só sobre os costumes; e quando parece ser sobre os systemas, he isso obra dos membros da Religião, e não dos dogmas, que fórmão a sua essencia. Não confundamos a obra de Deos com a obra dos homens; e não attribuamos ao espirito do Evangelho a conducta deste, ou daquelle Sacerdote, que falla e obra segundo os seus interesses, ou as suas paixões, e não segundo as maximas, que lhe deixou Jesu Christo, e os seus Apostolos.
O assassinato de Henrique IV, e Carlos I não foi obra da Religião, foi obra do fanatismo; e a instituição do Santo Officio, e revoluções de alguns Estados não forão dictames do Evangelho; forão introducções dos erros do tempo, e da incuria dos Reis, que não conhecêrão bem, nem os interesses do Throno, nem a Doutrina do Salvador. A Escriptura Santa está cheia de sentenças terriveis contra os máos Governos, e contra os Povos revoltosos. Ella amaldiçoa os Tyrannos; grita contra as revoltas das Tribus: mas nem manda aos Povos que se revoltem, nem patrocina os Reis, que abusão do seu poder. Louva hum Josias piedoso, condemna hum Assuero tyranno, e não quer que os seus Discipulos conspirem contra nenhum.
Herodes era hum valido de Cleopatra Rainha do Egypto, o qual Marco Antonio tinha nomeado para Rei dos Judeos por indecentes principios de patronato; e quando elle disse a Jesu Christo que tinha poder de o matar, Jesu Christo não lhe contestou o poder, e só disse: não terias poder em mim, se o Ceo não o tivesse assim querido. Tal he a frase da Religião em todos os Governos; e ella sempre reputou como discolos e anarquistas os Sacerdotes{11} que procedem d'outra maneira, deixando o seu ministerio pacifico para se complicarem, como diz o Apostolo, com os negocios seculares. Os Principes das Nações buscão o dominio, disse o Salvador aos Apostolos; mas vós não deveis fazer o mesmo.—Vos autem non sic.—
Nos Reinados de Fernando de Castella, e de Isabel de Aragão appareceo Colombo, e servio-se de hum frade Confessor do Paço, para fazer com que o Governo lhe desse auxilios no descobrimento do Novo Mundo, a fim de converter almas para o Ceo. Esta idéa concorreo para se fazer a primeira Expedição, e outras subsequentes; e daqui vem dizerem alguns, que a Religião influio na Politica Hespanhola para as barbaridades que Pizarro e Cortez commettêrão no Mexico, e no Perú. Mas para que attribuir ao Evangelho a desmarcada cubiça do ouro, que animava os Hespanhoes; e o desejo de estender os seus Dominios, que devorava o seu Governo? Se alguns Padres concorrêrão para aquellas horrorosas ladroeiras, não foi porque a Religião lhes ensinasse tal conducta; foi porque erão indignos filhos da Igreja, e porque misturados com a soldadesca contrahião os seus licenciosos procedimentos. O Bispo de Las Cazas, S. Francisco Xavier, Padre Anxieta, e outros, derão á Religião hum credito immortal entre os Indios; e se a Religião influio alguma cousa naquelles negocios, foi para adoçar a sorte dos conquistados, e tornar mais brandos os conquistadores.
Envergonhem-se pois os Padres das nossas eras, que abusão da Religião, querendo influir no confessionário e no pulpito sobre o Systema Politico. Inculquem aos Povos o respeito e veneração para com as Leis, e o Governo da Patria, que acharem existente: e se mesmo o Governo qualquer{12} perseguir a Religião, não conspirem contra elle, porque os antigos Padres nunca conspirárão contra os Dioclecianos. He o cumulo da insolencia, e da ignorancia declamar hum Abbade, ou outro qualquer Sacerdote contra hum Governo, com o pretexto de que elle não he legitimo; ou de que he contrario á Religião. Quem lhes deo authoridade para se erigirem em Juizes dos Governos? Obedeção, e preguem o Reino de Deos. Basta de enxovalhar a Religião de huma maneira tão indecente, e tão desconhecida dos primeiros Discipulos do Salvador. Não lhes basta o abuso, que elles muitas vezes fazem do thesouro dos pobres? Para que querem dar aos impios mais pretextos para declamarem contra a Religião? Para que vituperão o seu Ministerio? Não sabem, que o fanatismo he tão perigoso como a libertinagem? Concluamos pois, que a Religião não influe sobre a Politica dos Estados, senão persuadindo com a palavra, e o exemplo, para abrandar o Genio dos Reis, e melhorar os costumes dos Povos: O mais he detestavel abuso.
Os Padres da mais alta Jerarquia não podião ter sobre a Terra maior poder, do que aquelle que teve o Salvador. Ora, o Salvador declarou abertamente diante de Pilatos, que não tinha algum poder sobre os Reinos do Mundo; logo os Padres da mais alta Jerarquia não tem algum poder sobre os Reinos do Mundo. Se o meu Reino fosse deste Mundo, disse o Salvador a Pilatos, os meus Ministros havião de combater, e disputar para que eu não fosse entregue aos Judeos; mas o meu Reino não he deste Mundo.—Si ex hoc mundo esset Regnum meum, ministri mei utique decertarent ut non traderer Judeis: nunc autem Regnum meum non est hinc. S. João. 18. v. 36.
Verdade he, que o Salvador depois de haver{13} triunfado da morte no Sepulchro, disse—Foi-me dado todo o poder no Céo, e na Terra; e eu vos mando por esse Mundo, como meu Pai me mandou—Mas este poder he meramente espiritual, como evidentemente se infere das subsequentes palavras, nas quaes desenvolve a natureza deste poder dizendo—Hide, prégai, baptisai em meu Nome, e ensinai os homens a observar o que eu vos tenho ensinado.—
Dividírão os Apostolos entre si esta immensa tarefa, e com as armas da palavra, e do exemplo influírão muito sobre a ignorancia, e os costumes do seculo; mas nunca influírão sobre a fórma das Republicas Gregas, nem do despotismo oriental. A Lei Evangelica nada tinha de commum com as Leis Politicas. Os Apostolos fugião dos máos Governos, que não os querião escutar; mas não dizião aos Povos, que se revoltassem contra os Reis impios, e inimigos da Igreja, Elles ensinárão, que resistir ao poder era resistir á Ordenação Divina; e pela palavra poder entendião indistinctamente qualquer Governo. Logo, ainda que o Governo Constitucional, dado pelo Senhor D. PEDRO, Legitimo Rei destes Reinos, fosse hum Governo offensivo aos interesses da Igreja, não tinhão os Padres direito para lhe resistir, e para ensinar aos povos a desobedecer-lhe. Devião rogar a Deos por elle, ainda, que fosse herege; e quando vissem, que elle lhes ordenava cousas contrarias á vontade expressa de Deos, devião sacudir o pó dos sapatos, e fugir para outro Reino; ou soffrer o martyrio, porque em tal caso he melhor obedecer a Deos, do que aos homens, como dizia S. Paulo, quando fugia, de hum para outro clima.
A falta de Luzes sobre esta materia já ateou na Europa vergonhosas contendas entre o Sacerdocio,{14} e o Imperio. O poder temporal he essencialmente diverso do poder espiritual. Nem os Reis podem absolver peccados, e consagrar hostias; nem os Padres podem julgar Governos, nem fazer Leis: e qualquer ingerencia que elles possão ter sobre as Leis, e Politica do Estado, não he filha do poder que Jesu Christo lhes deo; he sim dimanada da generosidade dos Soberanos, que tem querido honrar por este modo os Successores dos Apostolos.