Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem poderam envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e expedições dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o que fomos, e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta, o espirito lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta, de que passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante solitario nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se nos deparam saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio portuguez.
Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus esforçados paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo duello entre a christandade e o islamismo, hastearam seguramente o estandarte portuguez? Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão? Dentro d'aquelles muros, cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos do heroico valor de Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra da gloria e do terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as façanhas de Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde Bombaim? Onde este vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os galeões de Portugal, ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás temerosas gentilidades? Onde está a India, que Portugal, a custo de façanhas inauditas, navaes e bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das nações occidentaes? Onde está a India? Oh! não repitamos a lastimosa interrogação, que nos pode ouvir, animada por um momento de redivivo e heroico patriotismo, aquella ossada gloriosa do immortal navegador, que hontem fomos depositar no grandioso monumento, consagrado aos nossos descobrimentos pelo rei emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que nós demos nome e senhorio? Onde estão esses mares procellosos e afastados, onde as quinas passeavam triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o feudo de Portugal? Aonde? aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais bravos, as terras que para a Europa soubemos conquistar. De todo o immenso imperio portuguez já não ha a circundar-nos mais do que melancolicas ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha para confortar-nos e engrandecer-nos uma voz eloquentissima, que resume nos seus magicos accentos a altivez e a gloria de Portugal.
Já não tendes, portuguezes, a India, nem Ormuz, nem Malaca, nem Ceylão. Nem ao menos vos deixaram como padrão aquelle cabo Tormentorio, cujas borrascas temerosas vos não entibiaram, que não fosseis adiante ensinar á indolente christandade os caminhos tenebrosos do Oceano. Não são vossos os dominios materiaes. Embora. N'aquelles mesmos territorios, onde agora florecem e dominam extrangeiros moradores, lá está sempre o vosso nome. É d'elles o que é da terra, mas é vosso unicamente o que se não pode aniquilar, porque é incorporeo e immortal. É d'elles a riqueza, o poder, o senhorio. Mas será sempre vossa a gloria. Partindo aventurosos e resolutos desde os ultimos confins da Europa occidental, cursastes os oceanos ainda virginaes, onde tomastes o ronco estridor das tempestades pelo hymno triumphal das esplendidas victorias. Abristes as portas do Oceano, e dissestes ás demais nações da Europa: «Despertae da somnolencia medieva, e entrae após os meus navegadores.» A velha christandade phantasiava o mundo nos fabulados portulanos. E vós, estendendo aos vossos pés a terra inteira, como se fôra ainda pequeno mappa, estudastes a geographia, sulcando as linhas nas aguas com as vossas quilhas venturosas, entalhando-as na terra com o ferro vencedor.
Isto diz, mas em carmes inspirados e em divinas modulações, o immortal cantor dos feitos patrios. É a voz da gloria, que resôa perpetuamente, vibrada pela tuba do maximo poeta e do mais ardente e devotado portuguez. São os Lusiadas. É o Camões.
Quando pronuncía um portuguez o nome do Camões, a admiração e o orgulho de contar como seu natural o grande epico, é o maximo elogio. E n'esta occasião, em que festivamente celebra Portugal ao seu poeta, quando o povo, estreitando os vinculos da patria em volta do seu mais illustre e benemerito cantor, está pagando em publica e solemne apotheose, a homenagem do seu culto ao altissimo engenho portuguez, parecera temeridade, quasi diriamos sacrilegio, o buscar encarecer a gloria do Camões. Seria como accender pallidas lucernas para que appareça fulgindo mais esplendido o sol meridiano. E, senhores, se levanto n'este momento a minha voz, perdida e abafada no côro unisono das acclamações universaes, é porque assim o ordenou a Academia, mais zelosa na veneração ao épico immortal do que feliz na eleição do orador.
Não espereis da minha voz um panegyrico, porque só farei em breves termos a commemoração de um grande nome. No meio do fervoroso enthusiasmo, com que a cidade de Lisboa, e as demais povoações de Portugal, solvem após tres seculos na escassa e tardia moeda que lhe é dado dispender, o preço das altiloquas estrophes, quando os arcos triumphaes, os prestitos solemnes, os hymnos melodiosos, os bellicos tropheos, as bandeiras multicores, as deslumbrantes illuminações annunciam publicamente que revive, como o symbolo da patria, o nome do seu cantor, a nação, como que expiando nobremente a culposa indifferença das passadas gerações, entalha n'estes honrosos monumentos o nome de quem teceu de luz a heroica narração dos feitos patrios. A Academia, associando-se a esta liturgia nacional em honra do poeta, poz-me na mão o cinzel, e prescreveu-me que n'um recanto d'este marmore, onde Portugal insculpe agora a sua e a gloria do cantor, eu deixe tambem gravado o nome do Camões.
Fazer o elogio do Camões é tecer o panegyrico da patria. E é sempre grato a um portuguez o encomiar a Portugal.
Nós temos, os portuguezes, um singular e raro privilegio. Somos nós entre os modernos povos europeus o que tem um poema verdadeiramente nacional, um poema, cujos cantos são as façanhas da nação enaltecidas pela mais florida e opulenta phantasia, modeladas nas fórmas da epopéa. Celebram outras gentes a fecundos e altissimos engenhos, cujos reflexos luminosos, transcendendo os ambitos da patria, estão doirando e ennobrecendo a litteratura universal. Mas nenhum povo tem como o portuguez um d'estes felicissimos espiritos, que são ao mesmo passo o genio da nação, e o genio da poesia, e em cujas obras respire ao mesmo tempo a patria e a humanidade, a gloria privativa de um só povo, e o destino commum de uma inteira civilisação. O Dante é immortal, mas o seu poema é inspirado pelo mysticismo e a vingança. Immortal é o Tasso, mas a sua epopéa é a novella cavalleirosa, que se enreda e desenlaça em redor dos sacros muros da triste Jerusalem. Immortal é Shakespeare, mas a sua musa, que penetra e descobre as mais occultas fibras do humano coração, é mais cosmopolita do que fadada a conglobar a gloria dos bretões. Immortal é Cervantes, mas a figura entre sublime e comica do seu heroe, é mais do que o symbolo da Hespanha, é a personificação da humanidade, como abstrusa e paradoxal composição de loucura e heroicidade. Immortal é o Camões, mas é immortal para os seus, immortal para os extranhos. Para os seus, porque em versos admiraveis divulgou as empresas, em que foram protagonistas. Immortal para os extranhos, porque os feitos, que reconta, são o berço onde incubou fecunda a novissima civilisação.
Manda a Europa, ainda então adormecida para as longas e trabalhosas expedições, manda a Portugal que marche na vanguarda. Eram tenebrosos, impervios, procellosos os mares, onde nenhum baixel se tinha aventurado. Entrevia-se o Oriente como a quasi fabulosa região, d'onde vinham magnificadas pela creadora phantasia os encantos e as maravilhas. Era a terra das ardentes especiarias e das drogas perfumadas, a fecunda matriz dos diamantes e das perolas. Os seus thesouros aguçavam o desejo ás gentes occidentaes. Era como o paraiso da cubiça para esta velha Europa, já cansada da sua gleba mais esteril que os ridentes vergeis orientaes. Todos anhelavam porque se descobrissem faceis os caminhos, para que a todos fosse commoda a peregrinação dos tractos lucrativos e das fructuosas mercancias. Pois vá adiante Portugal e explore as sendas indomesticas d'aquella terra de profana promissão. Vá adiante circumnavegando briosa e perseverante as inhospitas margens africanas. Engolfe-se nos mares tempestuosos e descubra as ilhas viridentes, onde as arvores por centenares de seculos, na perpetua solidão das suas florestas, haviam ramalhado sem temer a hacha assoladora do colono, onde os passarinhos, dominando sem rival, cantavam indolentes os amores, pendurando nas vergonteas os seus ninhos, sem recear que a mão do homem as viesse descobrir e profanar. Entrem os portuguezes, esta guarda avançada, estes heroicos batedores da nova civilisação, entrem na sombria, ignota e espessa escuridão das terras e das costas africanas, entrem resolutos com as suas proas mal seguras nas bahias, nas abras, nas aguadas. Vão nas suas aventurosas singraduras administrando pelo nome portuguez o baptismo da civilisação ás selvaticas paragens, que descobrem, e assignalando com padrões a possessão e o dominio. Pairem com os primeiros e mais felizes navegadores nas aguas revoltosas do cabo Tormentorio, onde a Africa, semelhante ao ferro agudo e penetrante de uma azagaia immensa, está ferindo inexoravel o coração do Oceano. Sejam infatigaveis na aventura, intrepidos no perigo, inabalaveis na ousadia, heroicos nas provações, indomitos nos contrastes da fortuna. Avancem de cada vez mais um estadio na róta, que traçaram. Abram nos mares desconhecidos a propria estrada, que vão descortinando e percorrendo. Operem maravilhas de sciencia cosmographica e prodigios de estoica paciência e milagres de valor e galhardia. Deixem atraz o cabo temeroso e em fragillimos baixeis vão singrando aventureiros o Oceano Indico. Aportem finalmente á celebrada terra oriental, e a principio hospedes e forasteiros, venham a ser em breve termo os altivos dominadores d'aquelles florentissimos imperios, agora avassallados e sujeitos ao jugo portuguez. D'ali bracejem as extensas vergonteas do descobrimento e da conquista até ás mais apartadas e mysteriosas regiões. Entre a Europa escudada com o nome de Portugal na China e no Japão. Vá lustrando nos portuguezes galeões os mais remotos archipelagos. Deixe memorada na gloria dos seus feitos e nos nomes portuguezes dos logares a passagem triumphal d'este povo pequeno na extensão, gigante nos seus brios. Partindo do ultimo Occidente, de exiguo e infantil feito gigante, confranja nos seus braços de ferro o globo inteiro. Dissipe com o seu arrojo incontrastavel as neblinas, que escondiam o Oceano, e rompa animoso e irresistivel o veo mysterioso, que encobria a face da terra. Aponte ali aos que na sua assombrosa variedade a desconheciam, as divisões e as fronteiras das terras e das aguas, como um amoravel preceptor, arrancando o envoltorio, que tinha recatado um globo geographico, ensina ao alumno pueril e curioso, as linhas que delimitam os continentes e os mares. Diga finalmente á Europa entre assombrada e invejosa: «A terra, que tu sonhaste, era a terra fabulosa, a terra debuxada nas descripções phantasiosas dos antigos e nos mappas mentirosos da edade média. A terra, que eu te dou, é a terra qual outr'ora saíu das mãos da natureza para o homem primitivo, qual sae agora das minhas mãos para o homem civilisado. É a terra, de que os antigos apenas conheceram uma nesga, de que Alexandre, nas suas tão famigeradas expedições, soube apenas tanto como a mais tarda e preguiçosa das minhas galés, talvez menos que o mais frouxo dos meus aventureiros. A terra, que vós conheceis, é a terra de Ptolomeu e de Strabão, a terra dos que não a viram, mas sonharam. Esta, que vos dou, é a terra de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de Fernão de Magalhães, de João da Nova, a terra, de que para vós tomamos posse, como os primeiros que em todas as direcções a soubemos percorrer e navegar.»
A Europa, ouviu, estremeceu, levantou-se e invejou. As páreas copiosas dos nossos descobrimentos, os despojos opimos das nossas expedições, os fructos sasonados das nossas conquistas, tudo lhe deitámos generosos no regaço. Para nós guardámos o que se não pode alienar: as glorias e os laureis. Démos-lhe tudo o que havia de terrenal e de mundano. Recatámos como thesouro inestimavel o que as nossas empresas memoraveis tiveram de espiritual, quasi divino. Á semelhança do honrado e brioso cavalleiro, que, com mais cicatrizes que veneras, no outono da sua existencia gloriosa, pendurando na panoplia a espada reluzente e o murrião abolado nas requestas sanguinosas, deixa que tudo lhe arrebate a má fortuna, mas não cede ou vende a extranhos as insignias memoraveis, esculpidas como brazão e stemma gentilicio na face do seu broquel.