Para entalhar no bronze da epopéa os feitos que resumem a vida nacional, nasceu Camões.

Quem era? D'onde veiu? Onde nasceu? Onde passou a puericia? Onde aprendeu na adolescencia os dois amores, que lhe exalçaram o espirito, cravando-lhe de espinhos o coração,--o amor da patria, que elle idolatrou mais que ninguem,--o amor da mulher, que mais do que nenhum poeta lyrico elle soube divinisar?

A vida do Camões é em quasi todos os seus successos uma lenda, ou um mysterio. Do poeta conhecemos perfeitamente o aspecto, em que se volta para nós e para a patria. Ignoramos quasi inteiramente o que se occulta nas escuras profundezas do coração e da existencia individual. É como estes resplendentes corpos celestes, de quem apenas rastreamos a luz e o esplendor, sem ao certo comprehender o que está por baixo da luminosa superficie. Contemplamos no Camões reflectida com toda a sua clara intensidade a vida nacional. Acostumámo-nos a vêr e admirar no seu espirito a imagem heroica do povo portuguez. Os loiros, que lhe exornam a fronte, são tambem os laureis que enramaram em seus triumphos a patria, quando era gloriosa e invejada. A sua alma é a alma da nação. No seu poema não respira apenas o estro de um cantor, palpita o coração de Portugal. É preciso que haja o que quer que seja de vago, impessoal e indeciso n'esta figura grandiosa, que tem á cinta o proprio gladio da nação, e desfere no seu plectro, não os sons da sua propria inspiração, mas os hymnos collectivos entoados por todo um povo á sua grandeza e á sua gloria. O Camões não é apenas um poeta, é um côro triumphal, em que as vozes de muitas gerações, na propria saudação dos seus heroicos feitos, se conglobam nos accentos de uma voz predestinada.

São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não se sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz? Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes. Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas. Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos que os Lusiadas os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor.

O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os Lusiadas são a estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez. Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho.