Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.

Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não[{22}] ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?

As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.

Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.

Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam[{23}] arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.

Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.

Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.

Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.

Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam[{24}] alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?

Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.