Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.

Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.[{25}]

SEGUNDA CONFERENCIA

31 de maio de 1891

Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.

Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas;[{26}] e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.

Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,—de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,—do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,—de basiliscos descriptos por Averrhoes,—de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?

Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado[{27}] grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.

Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.