Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam[{28}] exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.
Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias[{29}] italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.
Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.
Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.
Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente[{30}] que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.
Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?
Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.
Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?
O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa,[{31}] em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.
Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que[{32}] dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.