Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.
Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que[{33}] procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?
Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.
Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do[{34}] descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.
Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.
Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.
Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente:[{35}] Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.
Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.
Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.[{36}]
Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a[{37}] Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.