«—A doutrina de antipodas—dizia o lumiar da Egreja—é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»
Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:
«—Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos?[{43}] Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»
Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na[{44}] egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.
Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara[{45}] á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.
Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.
Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.
Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.
A redondeza da terra admittida,—perguntavam elles a Colombo,—como depois de descer de um[{46}] lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?
A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.