Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?

Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo[{59}] presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:

In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—

Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como[{60}] Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.

Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.

Ao correr o terceiro dia de viagem o leme da Pinta desconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos[{61}] açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.

Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.

Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do[{62}] seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.

Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!

Adiante caminhava sempre a Pinta por mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os[{63}] opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!