Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominou Santa Maria, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada a Pinta, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que[{55}] recebeu o titulo de Nina. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.
Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.
Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.
A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos[{56}] navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.
Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se na Santa Maria, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.[{57}]
TERCEIRA CONFERENCIA
14 de junho de 1891
Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.[{58}]
Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?