Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.[{50}]
Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.
Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.
É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.[{51}]
Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.
Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas[{52}] convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.
Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.
Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se[{53}] para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.
Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.
Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse[{54}] acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.