Fizeram partir incontinente para a França, Italia, Allemanha emissarios annunciando que[{91}] Colombo descobrira as Indias para a Hespanha! Os reis catholicos ostentavam-se vangloriosos dos feitos de Colombo, e prometteram-lhe coadjuval-o em tudo quanto meditasse e emprehendesse. De differentes pontos da Europa receberam parabens, e tambem de Roma não tardaram embaixadores, que o Summo Pontifice enviava para congratular Isabel e Fernando e entregar-lhes uma bulla que promulgaram na cidade eterna, concedendo-lhes, no tocante ás regiões descobertas por seus subditos, direitos eguaes aos que Portugal recebera no tempo do infante Dom Henrique de Vizeu. Para que se não travasse conflicto entre as duas Corôas, que tinham entrado em emprezas de conquistas ultramarinas, declarou o Summo Pontifice na referida bulla, que traçada uma linha ideal do polo do Norte para o polo do Sul, a cem leguas ao Oeste das ilhas dos Açores e Cabo-Verde, as terras do oriente pertenceriam a Portugal e as do occidente á Hespanha. Assim decidia o Papa da sorte do mundo, não sendo de estranhar que o rei[{92}] de França perguntasse-lhe em que verba do testamento de Adão achara Sua Santidade o direito de distribuir os territorios do globo!
Convencidos os reis em presença da exposição pomposa que lhes fez Colombo das grandezas das ilhas indiaticas que descobrira; das vantagens que colheriam fazendo dellas suas conquistas, e povoando-as de Hespanhóes; do ponto de apoio que ahi deparariam para estender suas relações e dominação ás Indias; convencidos mais ainda ao apresentar-lhes Colombo os gentios e explicar-lhes que eram da raça das Indias, segundo ensinavam os livros dos viajores que tinham visitado aquellas partes do mundo, e conformes em tudo, traços, côr e fórmas com os chins e tartaros, doceis para receberem o baptismo, e crerem na religião de Christo, não se demoraram em expedir ordens terminantes para apromptar-se uma esquadra de navios, embarcar-se nella grande quantidade de gente, artilharia, armas, munições, cavallos, gado, e o que mister fosse para lá empregar-se, e confiar tudo á inteira e[{93}] exclusiva disposição de Colombo, afim de que proseguisse nas descobertas, munido de elementos poderosos com que praticasse a guerra, sendo preciso, e firmasse posses da Corôa, que durassem, e excluissem alheias pretensões.[{94}]
QUARTA CONFERENCIA
28 de junho de 1891
Logo que soou aos espertos ouvidos de El-Rei D. João II, de Portugal, a noticia de que o Santo Papa publicara e enviara aos reis de Castella e Aragão uma bulla concedendo-lhes terras a descobrir, além de 100 leguas ao Occidente das ilhas de Cabo-Verde, protestou immediatamente contra o direito que a curia romana se arrogara e declarou aos reis de Castella e Aragão que se não submettia ás bullas Pontificias.
Um conflicto poderia nascer deste incidente, caso não chegassem a accordo amigavel os monarcas de Castella, Aragão e Portugal; um tratado, porém,[{96}] celebrado em Tordesilhas, em 1493, estendendo a linha ideal traçada de 100 a 365 leguas, e compromettendo-se os soberanos a respeitar em tudo mais a bulla referida, serenou os animos timoratos, e puderam, então, desassombrados de sustos de guerra, cuidar os reis de Hespanha de aprestar a expedição maritima, militar e colonisadora, promettida a Colombo, para que elle continuasse na empreza do descobrimento das Indias Occidentaes, tão felizmente iniciada em sua primeira viagem.
Olhava Isabel particularmente para os interesses da religião catholica. Quanto não ganharia Castella propagando o Christianismo nas Indias, chamando ao gremio da Egreja Romana tantas almas pagãs, perdidas naquelles desertos, baptizando e salvando infelizes creaturas, a quem estava feixado o reino dos céos!
Para outra direcção pendia Fernando de Aragão. Salvação de almas era para elle questão secundaria. A principal consistia em conquistar terras, augmentar dominios, alcançar riquezas para Hespanha, e dos relatorios pomposos e discursos[{97}] bombasticos de Colombo derivava-lhe a ideia de que immensas vantagens resultariam de uma segunda viagem de exploração.