Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros[{140}] intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.[{141}]

Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano,[{142}] e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.

Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu[{143}] lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.

Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O.[{144}] para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.

Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.

Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as[{145}] denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.

Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!

Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta[{146}] tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?

Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do[{147}] movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.

Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.