Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios, seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito,—adeantar—estender os conhecimentos cosmographicos e geographicos—descobrir terras de que já haviam fallado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais—devassar os segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria—dilatar e propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas mercadorias e escambos.[{8}]

Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos, Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão Cypango.[{9}]

Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e[{10}] sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos de que careciam.

É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.

Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico[{11}] proximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?

Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas.

Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.

Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem[{12}] ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas epocas do anno.[{13}]

Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros, pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte, mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D. Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando![{14}]

Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.