Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?[{15}]

O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra, salvo mouro ou arabe, e por terra.

Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se então autorizados para distribuirem reinos e corôas.

Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuizos populares se[{16}] desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se descobrira que ella era habitavel?

Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella epoca.

Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do imperio[{17}] grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.

A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia Menor, do mar Negro e de[{18}] Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.

D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.

Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras[{19}] nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.

Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.