Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta.
Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.
Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.{33} Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno. Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.
—Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,—disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.
—Novidades grandes trazeis-nos,—exclamou o velho, percebendo-o.—A taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?
Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina,{34} e que o impressionou como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.
Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.
Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de Moraes com a sua conhecida repugnancia{35} de passar na companhia do gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e profundamente o irritavão.
—Antes de responder-vos, meu querido pai—disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto extremoso—Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!
A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente: