—Que crime commettestes? Preciso sabê-lo{36} primeiro, porque Deos me não permitte perdoar na ignorancia!

Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendião dar passagem ás palavras.

Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.

Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:

—Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.

Levou o velho a mão á fronte despovoada{37} quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.

—Expulsárão-te da companhia?—disse-lhe desesperadamente.

—Não, meu pai,—tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.—Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão todos, que não criei nem-um desaffecto.

—Mais criminoso foste então,—retorquio-lhe o velho—porque lançaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.

—Não, meu pai,—continuou Manuel mais tranquillamente.—Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes.