—Não te entendo,—repetio-lhe José de{38} Moraes, bastante alliviado já do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.

—Não commetti um crime, meu pai,—proseguio Manuel.—Não pratiquei uma acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as forças!

Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.{39}

Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.

—Que fizeste pois?—disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.{40}

—Perdoai-me antes, meu pai,—repetio-lhe Manuel.—Promettei-me o vosso perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.

—Confessa primeiro,—continuou o velho, arredando-se de novo do pé do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.

Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias.

Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e agradecido.

—Sahe d'ahi,—gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o{41} o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.