Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:
—Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto,{42} e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!
—Nunca!—retorquio-lhe o velho com violencia.—Dediquei-te á vida dos missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da tua familia.
—Deixei-a já, meu pai!—respondeu o filho.—Esta roupeta me não pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios ao coração e ao espirito.
Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:
—Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para sempre fechada!{43}
Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.
—Minha querida mãi!...—escapou-lhe dos labios uma voz dorida.
Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.
—Manuel!—pronunciou sempre a assustada mãi.—Obedece a teu pai, volta para os teus deveres.