Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos{114} dos navios hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua marcha{115} debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella desventurada.{116}

[CAPITULO VI]

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os Hollandezes,{117} inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas, que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo. Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar de 1624, com a obrigação de{118} entregal-os no fim do prazo ao governo, e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem, estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções, espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e Frisa. Competião á administração superior as attribuições{119} politicas e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de 1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D. Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em 1630, lográra{120} fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda, capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto, para que não pudessem servir ao inimigo.