Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco, em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque, e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente dirigia.
Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de{121} São Jorge, arrasára-se o heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes activos e bravos.
Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se unicamente aos Portuguezes o{122} cultivo das terras, e os trabalhos da industria agricola.
Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio, fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe. Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife. Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente estabelecido{123} nos seus regulamentos e annuncios.
Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas, alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o notavel bairro da Boa Vista.
Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou nova vida á{124} colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio, guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos levantar as{125} suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda. Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo, com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe, que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do paiz,{126} que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se até um dos agentes financeiros da Companhia.
Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda, e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém mais o ginete da dama que{127} vinha adiante, percebeu Manuel com susto que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira, que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.
Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las, vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus intentos.
Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado, agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o ginete de{128} raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar, tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome, officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de viva voz o seu reconhecimento.
Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a dama, e a transportou{129} para a sua casa, emquanto Manuel tratou de recolher-se ao seu mesquinho alvergue.