Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos. Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.{134}
Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e honesta, e um animo primoroso.
O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo razoavelmente, tomou a affeição{135} o caracter de amizade, e este o gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um triumpho decidido.
Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença. Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.
Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento, e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou, sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que suspeitasse o velho os mysterios{136} que lhe escondia o coração, abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais evidentes de verdadeira estima.
Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia, e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida intima e pura do lar e da familia.
Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára, para que{137} com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.
A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da creatura diante do supremo autor do mundo?{138}
[CAPITULO VII]
Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes. Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em prazer e delicias ineffaveis.