Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma, e nas{139} conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella, porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus impetos.

Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.{140}

Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta d'esta praça importante.

Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario. Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que os compellio a recuar.{141} Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens, quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos, senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos Portuguezes.

Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo, Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos Estados Geraes, e que{142} governára militarmente Pernambuco antes que se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau. Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em seus territorios de Pernambuco.

Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.{143}

Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.

Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia. Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.

Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com communicações{144} francas á Companhia a respeito dos motivos que os levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.

Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação, e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau. Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.