Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel arrependimento.
Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha. Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional, com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[[7]].{164}
Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.
Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na terra?{165}
Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava viço e vida.
Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a menor confidencia{166} de Manuel, posto o interrogasse por todas as fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia operando no seu animo.
Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do espirito.
Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino; adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma contra esse amor{167} e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior que era á razão e á vida.
Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca, aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.
Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem reciprocamente.