—Sou eu causa,—disse-lhe Beatriz um dia,—dos tormentos do teu espirito?{168}

—Tu?—respondeu-lhe Moraes.—Enganas-te. És antes o unico anjo que me ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado; paralysava-me porém a inercia do somno—chegaste,—fugio o monstro,—salvaste-me!

—Sacrificaste por mim tua vida,—continuou ella.—Sei que isso te não peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o espirito!

—Ama-me sempre,—replicou-lhe Moraes,—e tudo isso é nada, porque só vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas, precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua presença,{169} como a do anjo tutelar e da guarda.

—Moraes,—tornou-lhe ella,—conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua, em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie{170} incolor das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e do firmamento.

Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo sentimento forte da dôr e da amargura.

—Ó santa creatura!—exclamou, abraçando-a e beijando-a com effusão,—desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui, se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual, só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a fé no teu amor!

—Pensei,—interrompeu ella,—que encarariamos a felicidade sob a mesma feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas teu espirito se{171} revolta, e eu considero-me culpada. Dize que sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!

—Nem-um, nem-um,—respondeu-lhe Moraes.—Cumpre-me a mim repetir todos para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras, minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do espirito. Não és culpada,—nem eu,—ninguem o é. Abandona sonhos e pressentimentos infaustos.

Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e felicidade da sua prole querida.