Não existia mais a esposa para lhe distrahir o pensamento amargurado, quando o martyrisava com agudos espinhos e sangrentas dôres. Nem-um amigo lhe apparecia{185} para lhe modificar a direcção espiritualista das idéas, e attrahi-lo de novo ás cousas do mundo. Arrastava-se de dia, estorcendo-se em amarguras. Velava de noite, atormentando-se em reminiscencias crueis e remorsos pungentes. Nem-um instincto o prendia mais á terra. Aborrecia a sociedade, e não encontrava allivio na solidão. Dias sem repouso, e noites sem somno, lhe avivavão cada vez mais os soffrimentos do espirito, ao passo que lhe arruinavão a saude do corpo.
Esforçava-se por respirar o ar livre dos campos, e notando-os todos lavrados artisticamente, cortados de canaes artificiaes e monotonos, divididos com regularidade exemplar, despidos de arvores naturaes e de vegetação espontanea, despovoados de passaros que gorgéão hymnos de amor, que devem subir agradavelmente ao throno de Deos, como harmoniosa orchestra que proclama e sauda a sua omnipotencia, cahia na maior tristeza e{186} prostração, recordando-se das planicies e veigas americanas, imagem e symbolo da Providencia divina pela sua grandeza ineffavel, encantos magestosos, e sublimes attractivos.
Que é das aguas, que corrião com a sua propria força, se desprendião de rochedos, brincavão com as pedrinhas alvas que lhes interrompião o curso, e engrossando, e recostando-se a leitos de flôres e perfumes, extasiavão os olhos, e denunciavão o poder ingente do organisador dos mundos?
Marchava assim meditabundo e só pela beira de um canal proximo a Amsterdam. Cahira a noite, e escurecêra com o seu manto o firmamento, rodeiando-o de trevas, sem que se apercebesse Moraes de que lhe cumpria suspender o seu passeio.
Fendeu os ares de repente uma voz enternecida de mulher, que cantava ao som de um instrumento que elle conhecêra na sua infancia, e que desde as plagas do Brazil não{187} ouvira mais tanger. Era uma guitarra portugueza, que, imitando a harmonia da harpa, gemia melancolicamente. Approximou-se Moraes para a casa de campo de onde sahião os melodicos accentos, arrastado por uma sympathia rapida que lhe sahio do peito. Applicando o ouvido ás palavras do cantico, estremeceu involuntariamente. Erão portuguezas, e pronunciadas por labios portuguezes. Quem seria o anjo que lhe sussurrava aos sentidos vocabulos da juventude? E que exprimião elles, affectos, paixões, ou delirios amorosos?
A pouco e pouco ouvio claramente as palavras, e não pôde suster-se em pé. Cahio sobre uma pedra, que lhe servio de abrigo.
Fôra para elle o cantico mais uma oração que uma lettra poetica; mais um estigma que uma rima musical; mais uma imprecação que um hymno. Formava-se dos versos{188} seguintes, que a boca que os proferia soltava com sonora e cadente melodia:
Ó doce e sagrado culto,
Que com o leite bebemos!
Tu nos sorris desde a infancia,
Com teus feitiços crescemos.
Antes carceres, exilios,
Antes barbaro tormento,
Antes cruentas torturas
Que esquecer-te um momento!
Antes a triste miseria,
A fome e a sêde mais dura;
Antes a morte em martyrios,
Em ancias de crua amargura!