Ó legado precioso
Confiado ao coração!
O penhor sagrado de honra,
Ó santa religião!

Quem póde a fé, que lhe derão,
Renegar impunemente?
Quem seu Deos e sua crença
Se arroja a arrancar da mente?{189}

Vagará no mundo inteiro,
Como um animal damnado.
Nem amigos—nem piedade,
Só, de remorsos ralado!

Ha no espirito do homem uma fibra mysteriosa, que Deos ahi depositou para o fim de impressiona-lo de quando em quando pelo supersticioso, extraordinario e fantastico, abater-lhe a vaidade, e manifestar-lhe a differença das duas naturezas que o compõem, uma fragil como o corpo e oriunda do pó, e a outra immaterial e eterna, como emanação da chamma divina, á qual deve annexar-se no fim da existencia, quando separada dos restos mortaes.

Por mais robusto e forte que seja o espirito, alli estremece diante de um cadaver que passa; acolá se curva contrito diante de uma sepultura; mais adiante se apodera de pensamentos sombrios ao avistar uma cruz no meio do deserto, ou á beira do rio, abandonada como foi{190} pelos povos de Israel o Deos homem, que se sacrificou pela salvação do mundo; um som repentino do sino de igreja; um cantico tristonho a deshoras perdidas da noite; um miserere solemne soltado debaixo das abobadas do templo; quem póde resistir á emoção, immediata e dorida que traspassa os membros do corpo, gela o sangue, sobe á mente, prostra o espirito, e arrasta a alma mais sceptica para cogitações philosophicas e reminiscencias merencorias?

Avassallárão Manuel de Moraes todas estas impressões, causadas pelo cantico e guitarra portugueza, repetidos sem duvida e tangidos por alguma judia expatriada que guardára a sua fé, e conservára a lingua pittoresca de seus pais nas ribas do mar do Norte, e sob os frios gelos de Amsterdam.

—Renegado, renegado!—parecia clamar-lhe uma voz sahida do seu proprio peito, entornando-lhe pela alma abatida uma nuvem{191} de remorsos crueis e dolorosos!—Renegado, renegado!—era o grito estridente que lhe soava os ouvidos. Sem amigos, nem piedade, ficára só e solitario na terra.—Não era este o seu estado? Não se diria o verso dirigido e applicado contra o seu procedimento? Não era um castigo do céo?

Não teve forças para aturar a violencia dos pensamentos. Perdeu os sentidos, rolou por cima da relva que matizava o chão humido, e horas e horas se passárão sem que se percebesse do seu estado, e nem-um individuo caritativo, que por acaso transitou, o descobrio, e cuidou em tira-lo do perigo.

Esclarecião-se já os horizontes com os primeiros raios da aurora, desprendendo-se das fumaças escuras da noite, desfazendo-as ao seu sopro vital, e derramando luz por sobre a terra e nas immensidades do firmamento celeste, quando a propria humidade do chão o acordou do lethargo soporifico, e lhe prestou{192} forças para levantar-se, e reconhecer a sua triste situação.

Encaminhou-se vagarosa e pausadamente para a cidade, estremecendo ao echoar-lhe ainda aos ouvidos o cantico fatal, que o condemnava, e lembrava a sua situação.