—Como vos chamais?—continuou o padre pela mesma maneira com que lhe fizera a primeira pergunta.

—Manuel de Moraes é o meu nome,—disse-lhe acanhadamente o desgraçado.

Levantou-se subito Antonio Vieira da sua poltrona, avançou alguns passos para o sitio em que estava Moraes, encarou-o com cuidado e perspicacia, e dirigio-lhe as seguintes palavras:

—Conheço-o bem. Tome banco, e communique-me o que deseja.

—Nasci em São Paulo,—proseguio de pé Moraes, não ousando obedecer ao padre, que lhe ordenára de sentar-se.

—Sei, sei,—interrompeu-o o Jesuita.—Não{202} precisa desdobrar paginas que o devem amargurar. Sei toda a sua vida.

—Pois se o reverendo padre a sabe,—continuou Manuel de Moraes,—inutil é que eu o incommode e roube o tempo.

E um signal de despeito se espalhou por toda a sua physionomia, o qual Antonio Vieira penetrou immediatamente, e traçou de desfazer com certo affecto, e sorriso meigo, que lhe morreu nos labios, apenas elles o denunciárão.

—Não tem razão,—disse-lhe o Jesuita.—Abanque-se, e conversemos. Eu pertenço ao Instituto de santo Ignacio de Loyola. Parece que da sua memoria se não varreu ainda o procedimento dos servos de Deos, que o educárão em São Paulo. Nutre contra elles algum motivo de queixa?

—Oh não!—exclamou Moraes.—Deixárão-me gravadas eternamente no espirito e no coração as mais saudosas lembranças. Mas eu{203} reverendo padre, illudi-me, pensando que não nascêra para os santos misteres da companhia. Um espirito inimigo me arrancou do seu socegado e glorioso asylo. Aquellas virtudes primorosas, mas asceticas, aquella vida exemplar de sacrificios constantes e de devotação solitaria em pró dos homens, parecêrão-me superiores ás minhas aspirações e forças. Faltou-me a vocação, a fé, a persistencia do animo. Preferia servir a meus pais no lar domestico, coadjuvar minha familia nos meneios da vida, e pertencer ao mundo. Repellio-me meu pai... Entreguei-me ás aventuras. Atravessei desertos. Cahi prisioneiro...