—Isso nada é—cortou-lhe o Jesuita o discurso, carregando o sobrolho; apertando os labios, e reganhando o aspecto da severidade.—Ahi não ha crime ainda... ha desgraças apenas.

—Perdôe-me o reverendo padre,—gritou{204} soluçando Moraes, e atirando-se ao chão.—Tem razão. Tem toda a razão. Mas Deos não perdôa quando ha arrependimento sincero e firme? Arrependo-me, arrependo-me. Passou-se a época das loucuras. Estou preparado para todos os sacrificios que possão remir os meus crimes. Ancio por confessar-me, fazer quantas penitencias me recommendarem, soffrer as penas que me impuzerem, comtanto que volte á minha santa religião, unica que reconheço por verdadeira, e possa regressar para a minha patria, para o seio dos meus parentes, e para a santa companhia, acabando os meus dias no serviço de Deos, e esperando o seu perdão na eternidade!

Fixou n'elle o padre olhares vibrantes e perscrutadores. Quiz ler-lhe na consciencia, descer-lhe ao fundo d'alma, e descobrir a verdade da retractação e sua espontaneidade. Não se tratava de um gentio selvagem,{205} puro e innocente, nomade e ignorante, despido de idéas sociaes e religiosas, que Antonio Vieira encontrára em multidão errante no seio das florestas brazileiras, e que elle sabia tão perfeita e carinhosamente affeiçoar á grei catholica, chama-lo á religião santa de Christo, e fazer-lhe abraçar de um trago o baptismo com a fé, não guardando no coração pensamento adverso ou malicioso. Fôra Antonio Vieira um missionario magistral, e se habituára a considerar o indigena das solidões da Bahia, do Maranhão e do Pará como uma criança, que aceita sincera e convencidamente os conselhos do religioso provecto, e se lhe dedica com todo o fervor ingenuo da alma e do espirito. Outra era porém a situação de um Portuguez, que esquecêra o seu culto, postergára os seus deveres religiosos, e apostatára da sua fé, trocando-a pelas doutrinas dissidentes e schismaticas que perdião o mundo. Mais difficultosa e grave{206} era ainda a sua posição, tendo em presença um homem que elle sabia instruido, intelligente, e atormentado de paixões tumultuosas.

—Manuel de Moraes,—disse-lhe o padre, erguendo-se como o sacerdote, e tomando a attitude que cabia a quem não fallava já como homem, mas obrava como representante de Deos e da Igreja.—Como posso dar credito ás vossas vozes, quando contra vós proclama uma serie constante de procedimentos indecorosos, uma lista de crimes infamantes?

—Não proclama só, reverendo padre,—retorquio-lhe Moraes;—condemna-me até com força e verdade; sei-o eu mais que ninguem. Daria porém este passo por interesse? O que me falta na vida, se a pretendesse continuar como até agora?

—Sois ardiloso,—disse-lhe o Jesuita.—Conheço-vos muito pelos vossos escriptos, e pela fama dos talentos que Deos vos concedeu. Como patriota, não nutro a menor duvida,{207} porque a defesa que publicastes da nossa revolução de 1640 o certifica de sobejo. Não basta porém isso... não... A religião é superior a tudo. O que é patria, sociedade, familia, homem, sem a religião de Christo, dos seus apostolos, dos seus santos canonisados, da sua Igreja universal e eterna, do seu representante na terra, que é o Summo Pontifice de Roma? Fragil tudo, barro incolor e imprestavel, materia inerte, selvageria miseranda, animalia bruta. Aos interesses mundanos se antepõem as aspirações sagradas e as cousas divinas. Ao homem a familia, á familia a sociedade, á sociedade a patria, e á patria a religião unica e verdadeira de Deos, que é a catholica apostolica romana, da qual são servos humilissimos os socios e discipulos de santo Ignacio, que abandonastes e renegastes!

—É sincero, meu padre,—continuou Moraes,—é sincero o meu arrependimento. Torturão-me{208} os remorsos. Não me deixe morrer sem retractar-me, e expiar os meus crimes. Não me deixe finar nas penas do inferno, que me devastão, assolão e martyrisão já. Tenha piedade. Guie-me. Ensine-me o caminho da esperança, que allivia, quando mesmo não salve!

Forão estas palavras acompanhadas por tão abundantes lagrimas que inundárão o semblante de Moraes, e proferidas com accento tão enternecido e convencidamente profundo, que o Jesuita se impressionou em pró do penitente, e arrancando do pescoço uma enorme cruz pendida de um rosario que o ornava, apresentou-a a Moraes, que a beijou incontinente com fervoroso affecto, e dando evidentes demonstrações de arrependimento consciencioso.

—Levanta-te, peccador!—disse-lhe o padre, e abrindo uma porta, que lhe apontou com a mão, continuou:—Eis alli um oratorio.{209} Alli está a imagem de Deos. Curva-te diante d'elle, dirige-lhe tuas preces, e pede o teu perdão.

Ergueu-se Moraes de subito, correu para o oratorio annunciado, transpôz a porta, e atirou-se de joelhos diante de um altar allumiado por uma lampada de prata e quatro velas de cêra, que lançavão um clarão funebre e merencorio.