Estava em cima do altar um grande quadro representando Jesus crucificado. Gottejava-lhe o sangue das mãos, dos pés, e das numerosas feridas de que tinha o corpo atravessado. Serenidade celeste e magestosa lhe pairava por sobre as faces esbranquiçadas. Dos olhos amortecidos partião raios vivazes de innocencia, pureza e santidade ineffavel. Parecia proclamar ainda ao mundo as verdades eternas, a moral e a fraternidade humanitaria. Pintava-se agarrada aos pés da cruz a afflicta Mãi, carpindo a dôr que lhe{210} dilacerava o peito, e lhe raiava sublime pelas faces enternecidas. De um lado do quadro a grande figura de santo Ignacio de Loyola prégava a disciplina e o enthusiasmo para combater o protestantismo. São Pedro, do outro lado, mostrava as chaves do céo, e cingia a tiára augusta dos Pontifices de Roma, cabeça da Igreja catholica.
Sentio Manuel coar-lhe pelas veias como que um lenitivo, senão jubilo, diante d'essas santas imagens. Despio-se a sua alma do sopro frio e secco do calvinismo, aquecendo-se ás chammas mysteriosas do culto salvador e misericordioso. Não lhe esquecêrão orações enternecidas, preces da mocidade, e sinceras demonstrações de convicção e fé. Sorrio-lhe a esperança, a vida, a eternidade sob nova physionomia. Rasgou-se-lhe aos sentidos, e ao espirito, um vago, diaphano e indefinido futuro, que já não era o da desesperação, como até então antevia, e com que tanto se assustava.{211}
Tempo bastante deixou-o a sós o padre Antonio Vieira na posição de peccador e penitente. Aproveitou Moraes esse espaço, saboreando-o a tragos apraziveis, inundando-se de esperanças prazenteiras, e reganhando a fé perdida, que se lhe entranhou profundamente, e se apossou de sua mente inteira. Dir-se-hia outro homem, mudado, metamorphoseado, crente, e ancioso de entregar-se ao serviço de Deos eterno, e da sua Igreja universal, para remir por meio de todos os sacrificios, que o não aterrorisavão já, os seus peccados e crimes, e alcançar a sua salvação eterna.
Chegou-se a passos vagarosos para o pé d'elle o celebrisado Jesuita. Percebeu-o absorto na contemplação celeste, raiando-lhe o semblante com uma alegria extraordinaria, dedicado fervorosamente á adoração, entregue a pensamentos puros e divinos. Admirou-o na sua contricção, e convenceu-se de que provinha o seu arrependimento de espontaneidade{212} e sinceridade da consciencia, e que o catholicismo e a companhia de Jesus ganharião muito com a abjuração da sua apostasia.
Estava o padre acostumado a assistir a arrependimentos serios, e a devoções preciosas e inspiradas subitamente depois de uma carreira lamentavel de crimes, como se a Providencia divina prezasse sacar do mal infindo o prestimoso bem, e mostrar que a retractacão convencida e conscienciosa conseguia o esquecimento de peccados horriveis, e salvava os infelizes que, recuados dos seus impetos de loucura, se soccorrião á sua inextinguivel piedade.
Não iniciára o proprio santo Ignacio de Loyola a sua vida tormentosa no turbilhão de feitos escandalosos? Não se convertêrão em seus discipulos e se tornárão exemplares de virtudes selectas individuos exaltados repentinamente pelas obras meritorias e gloriosas dos padres da companhia? Não se recrutára{213} e resplandecêra o Instituto algumas vezes com peccadores que se reputavão perdidos, e que uma vida nova de sacrificios attrahira á salvação das suas almas, e ao serviço heroico e humanitario da companhia? Não conseguira Madgalena ser por fim canonisada santa da Igreja, após enormes acções, que a prostravão na miseria degradante e infima?
Era por demais avisado o Jesuita para se enganar em presença de manifestações tão expressivas, e para deixar perder-se uma occasião tão propicia, que offerecia ao Instituto recuperar uma intelligencia primorosa, e um sujeito ornado dos mais bellos e distinctos dotes e qualidades.
Não lhe bastavão os triumphos adquiridos nos sertões do Brazil sobre tribus inteiras de gentios desgarrados e errantes, que chamára ao gremio da igreja santa. Não se reputava o Instituto devotado exclusivamente á catechisação{214} e civilisação dos selvagens dos desertos americanos, como praticavão ainda os discipulos de santo Ignacio, expondo-se corajosos e enthusiasticamente á fome, á sede, ás perseguições, ás frexas envenenadas dos gentios, e á morte cruel, que alguns encontravão na solidão das mattas virgens; nem tambem a conseguir abjurações de rajahs e povos idolatras da Asia, como São Francisco Xavier, apostolo das Indias. Mais poderosa aspiração e ambição mais elevada lhe exaltavão e dirigião o animo. Anciava por ver a companhia alçar-se em prestigio na Europa, combatendo com denodo os schismas que rasgavão a Igreja Catholica, domando as autoridades civis, superintendendo os soberanos, e impondo-se ao poder temporal, e á marcha dos governos. Verdadeiro revolucionario politico e religioso, empregava a penna escrevendo constantemente e publicando umas sobre outras obras primorosas, e não poupava a palavra, fallando dos{215} pulpitos aos reis, aos nobres, ao clero, e ao povo, que se apinhavão nos templos para ouvi-lo prégar, e admirar-lhe a portentosa eloquencia, e a instrucção variada e interessante. Convencido de que a companhia de Jesus era um instrumento da Igreja e do Papa, não repousava em seus trabalhos. Conseguira fazer resoar os templos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os échos agradaveis e harmoniosos de sua voz admiravel, e gemer os prelos typographicos com a tarefa ininterrompida de manufacturar os seus livros. Recebêra missões secretas e politicas de Dom João IVº de Portugal para Roma, França e Hollanda, e em pró do seu paiz negociava ainda allianças de nações estranhas, que o ajudassem contra Hespanha.
Despedia a sua palavra o fogo sagrado. Queimava como incendio, feria como punhal afiado e agudo. Seduzia, arrastava, captivava, e enchia ao mesmo tempo de encantos os ouvintes{216} todos. Manifestava a sua penna uma logica cerrada, um estylo pomposo e correcto, uma cópia espantosa de erudição, e imagens apropriadas, interessantes e arrebatadoras.
Alma grande, sublime espirito, eloquencia superior, corpo affeito a trabalhos e fatigas, indifferente a perigos, devia justamente passar o padre Antonio Vieira, nascido em Lisboa, criado e educado na Bahia, por um dos homens mais extraordinarios que tem o mundo produzido: meio Portuguez e meio Brazileiro; meio civil e meio religioso; meio patriota e meio romano; gozou devidamente em sua vida de uma fama universal e legou á posteridade um nome de engenho selecto, grandioso e admiravel.{217}