—Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.
Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.
Deliberado porém a dizer a verdade inteira,{241} fosse qual fosse o resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras, respondeu ao vulto em tom resoluto.
—Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.
—É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos Brazis?—continuou o vulto a perguntar-lhe.
—É verdade,—repetio Moraes.
—Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o habito?—continuou o vulto.
—Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,—proseguio Moraes.
—E me não reconheceis?—disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.{242}
Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.