—Não me é possivel,—respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:—Sem duvida querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos envião para interrogar-me?
—Afastai do espirito,—replicou-lhe o Jesuita,—idéas tão erradas quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo Ignacio de{243} Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição. Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.
Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.
—Que quereis pois de mim?—disse-lhe meigamente.—Cheguei de Hollanda, trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição{244} me arrancárão da santa morada.
—Tomou o nosso provincial conta de tudo—proseguio o vulto com tristeza.—Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa. Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos os esforços!
—Tenho de morrer!—proseguio Moraes.—Sinto-o tão cedo porque não expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para comigo!
—Ignorais que já vos condemnárão?—retorquio o vulto.
—Condemnado sem ser ouvido?—perguntou-lhe.
—Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e apostata,—continuou{245} o Jesuita.—Formou-se o processo, e lavrou-se a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o vosso nome no livro dos condemnados á morte.
—Nada me resta portanto no mundo?—exclamou Moraes.—Deixai-me então rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida, para que me conceda a sua graça infinita!