—Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição—proseguio o velho—quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração, e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.

—E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?—murmurou Manuel com indicios visiveis de despeito.{246}

—Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?—repetio-lhe o padre.—São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana, constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes, guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras, processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo. Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição, que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta, emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos{247} sãos, que podem dar ainda viço e fructos.

—Mande-me ao menos—interrompeu Moraes—um padre, um amigo fiel para me ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!

—E que vim eu aqui fazer?—perguntou-lhe o Jesuita em tom de queixa—para que penetraria por entre estes negros corredores, e chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos, fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não desampara os seus discipulos?

—Obrigado! obrigado!—proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.

—Levantai-vos, filho—continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e apertando-o nos braços—não é tempo ainda de confissão e preparativos do ultimo instante. Sou por{248} ora um amigo, que procura consolar-vos, e basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem sou... lembrar-vos do passado...

Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e copioso.

Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.

Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e sonora:{249}