—Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o assombrava de todo.

—Olha—proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de avivar-lhe a memoria—olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras, jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e a{250} grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre, que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não avistas a povoação{251} de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?

—Meu Deos, meu Senhor!—gritou Moraes.—Que feridas me rasga este padre, e não posso recordar-me d'elle!

—Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma casinha branca, de telhas vermelhas,—continnou o vulto.—Morava n'ella José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.

—Morto é já meu pai!—desgraçado!—Basta, basta!—interrompeu-o Moraes.—Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!

—Não descobriste ainda?—repetio o padre.—Conto está obsecado o teu espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!... Lembra-te, filho, do padre{252} que te disse: Desgraçado serás, porque a Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana. Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias!

—Eusebio de Monserrate!—prorompeu em ancias afflictas Manuel de Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.{253}

[CAPITULO XIII]

Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição, encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.

Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo de santo Ignacio, e prestar{254} relevantes serviços á religião e ao Estado.