Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.

Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais: Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.

Concordárão em procurar todos os seus{255} amigos, e aquelles individuos para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira, summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa, empenhando todo o seu valimento.

Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha, e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos{256} seus escriptos primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do beneficio alheio.

Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.{257}

Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão victorias assignaladas.

Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e perigos que lhe surgião{258} por toda a parte. Que valia a salvação de um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio, que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo nacional?

Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina que humana?

Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas, apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa consorte.

Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate que perdidos serião todos os esforços empregados.{259} Esvoaçava por cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.